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Parte 1 - A Barda

 

Carmen dedilhou habilmente o alaúde, tirando notas simples e batidas, mas de fácil aceitação para aquele público rude e boçal. Umedeceu os lábios rosados com a língua, enquanto olhava com seus belos olhos verdes parcialmente escondidos pelo chapéu emplumado. Maneou a cabeça para afastar uma mecha do cabelo ruivo, e se preparou para cantar.

 

Era uma noite tão bela

Tal qual não vi como aquela

O mar tão calmo ao luar

Sentia uma paz sem igual

Mas daquilo sabia tão mal

Em sua vida nunca pôde amar

 

Os versos saiam de sua boca automaticamente. Fingia improvisar, mas já tinha escrito a canção há algum tempo. Seu público não iria perceber. Na verdade, poucos estavam prestando atenção a sua música. A maioria já estava bêbada demais. Ou estavam dormindo sobre as mesas ou se esforçavam em beber um pouco mais. Aqueles que ainda a olhavam, pouco prestavam atenção a melodia. Preferiam observar seu corpo bem delineado. Não eram muitas mulheres que andavam por aí em calças de couro. Ou calças de qualquer espécie. Talvez naquela pequena vila, somente ela e sua companheira de viagem não usassem saias.

 

Na praia era como sereia

Cabelos soltos na areia

O herói encantado ficara

Não sabia ele porém

Se outro passo fosse além

Sua vida, pela donzela, deixara

 

Helena estava no balcão, bebendo uma caneca de cerveja escura. O capuz estava levantado, ocultando seus caracóis castanhos. A aljava fora deixada à porta, assim como o arco, pois o estalajadeiro insistira que armas não eram permitidas ali. Ninguém pediu que Carmen entregasse suas facas, atadas aos seus quatro cintos que eram quase um espartilho sobre sua casaca. Ninguém iria esperar que uma barda fosse ameaça. E este foi seu primeiro erro.

 

Um soldado grande e forte, com braços grossos como troncos de árvore se aproximou de Helena. Carmen não podia ouvir o ele dizia, devido a sua própria música e os murmúrios do salão. Mas ficou claro que não era nada agradável, quando captou o brilho de ira no olhar da companheira. Era o momento que precisavam. Carmen se levantou do seu banco, continuou a tocar, agora em um ritmo mais festeiro, e soltou a voz aveludada para que todos a notassem.

 

Pois é hora, nobres amigos

E ouçam bem o que digo

O herói encontrou o seu fim

A sereia veneno portava

Tal perigo ali não se achava

É verdade, acreditem em mim

 

Os homens se exaltaram. Alguns se levantaram e começaram a bater palmas no embalo da canção. Carmen saltou para uma mesa, chutando as canecas e acordando um velho com bigodes de morsa. Sapateava e cantava, sem tirar o sorriso do rosto. De soslaio viu quando Helena agarrou o homenzarrão e sacou uma adaga oculta na bota.

 

Todos das mesas mais próximas se levantaram e se aproximaram da barda. De repente aquele show lhes chamava a atenção. Carmen sapateava sobre a mesa, tocando o alaúde, cantando e sorrindo. Até o estalajadeiro parou, com uma bandeja de canecas borbulhantes, e abriu um sorriso simplório. E enquanto ninguém olhava, Helena, nos fundos do salão, passava o grandalhão na navalha.

 

Yep yey! Vamos cantar!

Essa historia vai acabar

Nosso herói, pobre coitado

Pela sereia, foi degolado

 

Enquanto os homens gritavam e aplaudiam, ninguém ouviu o grunhido de dor que a vítima de Helena soltara. Escondendo novamente a adaga na bota de peles, a esguia mulher arrastou o enorme corpo para trás do balcão. Carmen sabia que em seguida iria checar seus bolsos, assim como o cofre da estalagem. Portanto precisava de mais tempo.

 

Yep yey! Eis a lição!

Sempre ignore seu coração

Venha menina, vamos dançar

Jaz o herói no fundo do mar

 

Em seguida Carmen os brindou com um longo solo de cordas, animado e veloz, apenas acompanhado pelas palmas difusas e os gritos enebriados da turba. Somente quando Helena a olhou e foi em direção a entrada, ela encerrou o show, tirando o chapéu e agradecendo.

 

— Muito obrigada! Muito obrigada!! Vocês são soberbos! — e passando o chapéu, esperou que as moedas fossem nele depositadas. Aguardou até que todos fizessem sua contribuição, sempre com um belo sorriso nos lábios. — Ah, que pessoas mais generosas!

 

Desceu da mesa, colocou o alaúde às costas e enquanto se dirigia para a saída, colocava as moedas em sua bolsa. Acenando para todos com sorrisos e beijos, se despedia.

 

— Até breve, gente amiga! Carmen Sant'Andreas espera que vocês tenham todos se divertido! Adios!

 

Helena já estava abrindo a porta quando um grito se fez ouvir, seguido do som de coisas se partindo. As duas olharam para trás, assim como todos os presentes, e viram a jovem filha do estalajadeiro, roliça e de faces vermelhas, com a bandeja de canecas de barro quebradas aos pés, olhando terrificada para algo atrás do balcão.

 

— Maldição! — praguejou Helena, agarrando o braço de Carmen e abrindo a porta.

 

No entanto, antes que ela pudesse passar, um homem tão grande quanto aquele que matou entrou no recinto. Sua armadura não deixava dúvidas que era também membro da guarda da cidade. Por um instante o homem bloqueou a porta, como uma montanha imóvel. Foi o suficiente para dois rapazes irem até o balcão e encontrarem o morto.

 

— Ele foi... ele foi assassinado!! — gritou um deles, e um murmúrio geral começou.

 

— Foi ela! A mulher com o arco! Foi ela sim! — gritou um velho.

 

— Ei vocês! Esperem aí. — disse o estalajadeiro, e no mesmo momento o recém-chegado brutamontes colocou as enormes mãos nos ombros das duas.

 

— Pois bem... — disse Helena, abaixando a cabeça, ocultando o rosto nas sombras do capuz. Deixando apenas um sozinho maldoso à vista, por fim disse: — Vamos dançar.

 

Carmen sabia sua deixa. Habilmente puxou do cinto suas facas de arremesso. Cravou duas delas na mão do homem que a prendia. Ele gemeu enquanto levantava a mão. Em menos de um segundo Helena estava sobre ele, novamente com a adaga fora da bota, rumo a sua garganta. Os homens da taverna vieram em sua direção, mas eram poucos que conseguiam andar sem tropeçar nos próprios pés. Mas aqueles que conseguiram logo sentiram as facas de arremesso cravarem em seus olhos.

 

Helena ainda lutava com o guarda. Este estava atento, e resistiu mais que o outro. Com a força de seus braços conseguiu evitar a adaga e atirou Helena contra a parede. Depois investiu contra Carmen, mas a barda se esquivou de seu agarrão. Um outro homem, fedendo a vinho barato, tentou golpá-la com uma garrafa, mas ela o segurou pelo braço e o torceu até ouvir o osso se partir. Nisso, o guarda sacou sua espada curta, mirando as costas de Carmen. Só se deteu quando viu a ponta vermelha da flecha que brotou em seu peito.

 

— Urrgh... — protestou rodopiando, vendo Helena com o arco em riste, outra flecha pronta para ser atirada. Mas não seria necessário. Ele tombou, quebrando a flecha com seu peso.

 

— Mais alguém? — perguntou Helena apontado a seta no arco para todos aqueles que ainda estavam de pé. Todos atônitos e em silêncio. — Ótimo. Vamos.

 

Carmen rapidamente recolheu algumas facas e as guardou novamente no cinto. Em seguida as duas deixaram a taverna. Porém ainda não tinha acabado. O sino da praça central estava soando. Alguém dera o alarme. Era noite fechada, e apenas algumas tochas iluminavam o caminho. As duas puderam ouvir os passos apressados de outros guardas vindo. Ouviam o som das armaduras batendo e seus gritos de ordem.

 

Foi Carmen quem primeiro montou no cavalo. Helena a seguia logo atrás. De quem eram os cavalos, pouco importava. Só havia uma saída do vilarejo e as duas sabiam que os guardas estavam vindo pelo mesmo caminho. Helena se deteve e banhou uma flecha especial em um archote. Com ela em chamas passou à frente da companheira. À galope, logo as duas encontraram com a tropa de doze soldados, armados com lanças e gládios.

 

Um deles, se precipitando, atirou sua lança contra Helena. Esta só teve tempo de se abaixar, com as costas no dorso da montaria, enquanto a arma passou a poucos centímetros de seu corpo. Ainda à galope, armou a flecha flamejante no arco e disparou. Não acertou nenhum dos guardas. Carmen sabia que Helena nunca erraria um tiro. Nunca.

 

Por sua vez, a cantora atirou uma faca contra um guarda que tentou golpeá-la. A faca encontrou sua garganta, pois na pressa de se preparar para o combate ao soar do sino, ele esqueceu de colocar o gorjal. Carmen podia se vangloriar tanto quanto Helena, pois ela também nunca errava um arremesso.

 

O cavalo de Helena empinou e quase a atirou no chão quando as lanças de três homens fecharam seu caminho. Carmen também se viu em desvantagem numérica, com facas prontas entre seus dedos, mas cercada por soldados adequadamente paramentados. Seria o fim da dupla, mas o fogo que se alastrava chamou a atenção dos soldados.

 

Helena não errava. Sua flecha em chamas teve como alvo um palheiro ao lado do estábulo da casa da guarda. Em pouco tempo o fogo se espalhou e iria atingir as fortificações e madeira e o paiol de pólvora dos canhões. Todos os guardas tiveram que recuar para deter o fogo. Resignados, baixaram as lanças e abriram caminho. As duas logo foram em direção aos portões a toda velocidade. Já chegavam aos limites da cidade quando Helena sentiu algo atingir o seu ombro. Olhando para trás, viu o guarda com sorriso zombeteiro que acabara de atirar sua espada antes de poder ir cuidar do incêndio.

 

— Desgraçado! — disse a arqueira, que sem parar o cavalo arrancou o gládio do ombro ferido.

 

— Helena, você...? — dizia Carmen visivelmente preocupada.

 

— Isso não é nada. Vamos sair daqui logo. Já causamos confusão demais.

 

— Mas temos que tratar esse ferimento.

 

— Depois. Agora sangre esse cavalo. Não iremos parar até o amanhecer. Apenas a primeira etapa do plano foi concluído. Ainda há muito o que se fazer. — Helena usou uma flecha como chicote e fez o cavalo avançar. — Iah! Vamos!

 

Era loucura, Carmen disse para si mesma. Cavalgar aquela velocidade na escuridão da noite, tendo apenas uma lua crescente e um mar de estrelas como faróis era o convite para uma queda às cegas e um pescoço quebrado. Mas de certo não podiam ficar nos arredores da cidade. Assim que o fogo fosse combatido, eles voltariam para seguir os seus rastros. O que Helena pegara do homem na estalagem era deveras valioso. Ainda faltariam algumas horas até a manhã chegar. Carmen só rezava para Helena resistir. Ela era forte, forjada de um material mais duro que as outras mulheres, mas seu ferimento parecia grave.

 

E a missão estava apenas começando.