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"O Douro bebe as cores da cidade /sobre elas eu abro o coração "

[ ph.586 ] Porto ( Património da Humanidade)

  

A BUCÓLICA MARGEM

 

Sento-me então a olhar o rio,

os pensamentos formam cardumes

que contra a corrente se insurgem

mas as águas são inexoráveis;

olhando-as, a superfície cintila,

propaga-se como se fossem notas

de um piano na garupa de um cavalo

que se dirige para o mar.

O Douro bebe as cores da cidade,

sobre elas eu abro o coração

em que te encontras, as colinas

emolduram as raizes que à terra

nos ligam. Para os meus olhos

é momento de pausa: as coisas

que interrogo não resistem à maré,

não dão respostas; perdem-se no mar

como tudo o que a memória não reteve.

Mas este rio

já foi longamente folheado, nele

escrevemos

o romance que nos deu uma casa,

nos cortou o cabelo, nos afastou

das rugas, nos entregou o azul

(tecido, nuvem, divã, janela...),

o voo das artérias, lugar do corpo,

portas que amanhecem, espelho

onde fazemos fluir a vida. Acordes

da guitarra que forja o horizonte,

que guia o sinuoso voo das gaivotas

e acaricia a pele que rasga atalhos

no interior dos sonhos. Estarei

vivo enquanto assim me guardar

teu coração. E no seu lucilar,

esta água imita o fogo

que devora sombras e escombros,

libertando a asa que no sangue

respira. A foz está próxima,

mas o horizonte é o teu olhar.

No leitor do carro, a guitarra flexível

sublinha o que divago; os acordes

disparam,

encontram-me na trajectória do seu alvo.

  

Egito Gonçalves

  

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Taken on January 19, 2007