Johannes Vermeer _ Girl with a pearl earring

For me its one of the most beautiful & enigmatic paintings ever!

 

 

... and following is a transcription of a poem, wonderfully written by my dear friend ARNALDO SILVA, a great poet and poetry s reciter!

 

(Sorry its not written in English but i have not the perfect translation for this )

 

" A RAPARIGA DO BRINCO DE PÉROLA "

 

 

Foi apenas por instantes breves que te vi…

 

… e mesmo esses… feridos de escassez

e sinuosos… agitados…

quase imprecisos e fugidios

por entre a azáfama das coisas e das gentes

no rebuliço próprio e costumeiro

de todas as chegadas e de todas as partidas…

 

… que os barcos -por mais mínimos- e os navios

não se cansam nunca de partir e de chegar…

 

… os beijos e os abraços e os sorrisos…

e os lenços… aqui e ali acenando lágrimas

rebeldes de exaustas e incontidas

na pressa que a saudade sempre tem

de apertar o peito

bem antes de a vista se perder na bruma

por onde se esconde e ofusca lentamente

o perfil do horizonte…

… na réstia de esperança que resiste

e permanece à espera

acossada sem tréguas nem descanso

de penas e pesares…

 

… angústias que ainda há pouco se julgavam

tão-só denúncias acidentais e descabidas…

 

… o bater do coração descompassado

na distância que uns dos outros

os entes queridos afasta e distancia

no desfiar dos gostos e dos laços

que pareciam assim tão pródigos…

… e tão imorredoiros…

de tão próximos e tão fortes… e tão seus…

 

… e as mãos!... como elas dizem tanto…

sem terem nunca de exibir ou de falar…

 

… como elas se cruzam e se entrelaçam

a baloiçar o gume da tristeza e da alegria

agarrando nacos que ficam sempre na lembrança

daquele mais último e mais sentido adeus!…

 

… cada vez mais esgotado…

cada vez mais desprendido e mais custoso

cada vez mais vacilante e inseguro de incerteza…

cada vez mais longamente… e vago… e devagar…

 

E foi no meio desta freima imensa

de alvoroço e de bulício

sem detença de espécie alguma nem parança

de vais e vens à toa… entontecidos…

no dorso de um tropel de agitação e frenesim…

… correrias sem pretexto nem destino

e gestos alterados em perfeito desalinho

sem motivo a julgar-se presumido

ou razão a surtir de algum lugar…

 

… que no súbito duma brecha incauta

de um tempo de todo em todo inesperado…

 

… eu te vi!…

 

… os tais instantes breves que retive

presos de pasmo e de fascínio irreverente

num tumulto arrasador de impressões e de recados…

 

… mensagens que se guardaram ciosa e castamente

no ventre mais lídimo e mais íntimo de mim…

 

Desde o turbante desse azul inconfundível

a soletrar origens e desígnios

de um fado concebido inteiramente para ti…

… até à saia despregada e colorida

a cair de solta até quase pelos pés

de leveza adolescida e de frescura …

 

… qual essência formosa e luzidia

a passear-se delicada pelo cais…

 

… desde o casaco meio longo sem adornos

de botões ao centro perfilados de alto a baixo

a prometer modéstia e singeleza

e brio gracioso e fidalguia…

… até ao lenço branco de tecido e feminino

enroscado ao jeito de gola ou de colar

em torno desse teu pescoço altivo

esguio de elegância e de finura…

 

… tudo em ti era diferente…

 

Não eras como todos os demais!...

 

Em cada traço afeiçoado do teu rosto

desenhos de sonhos peregrinos…

adiados…

para um dia terminar…

 

…aromas de outras paragens…

outros povos… outras gentes…

prenúncios -ainda-

de outros mares a sugerir distância…

 

… de tão perto afinal… tão estranhamente!…

 

… e os meus olhos pararam no teu olhar…

 

Quantas histórias de lonjuras de outras pátrias

deixadas para trás sem esquecer!…

 

Quantas estepes percorridas em galopes desfreados

sem limites nem temores

nem renúncia compelida de desejos e vontades!…

 

Quantas sendas de pelejas e vitórias

eu não senti de notícias a desfilar

pelo brilho genuíno desse teu brinco

único… e pérola…

de um quase cinza irreverente

e símbolo da estirpe indiciada

tão nobre e tão fidalga do teu nascer!…

 

A rapariga do brinco de pérola!…

 

… foi assim que te chamei

nos recônditos silenciosos da minha alma

e assim que ficaste esculpida cá por dentro

-ao pormenor-

quando a multidão em ondas de euforia

nos voltara impunemente a separar…

 

Não era a cidade assim tão grande!…

-pelo menos não o era em demasia…-

nem o porto sequer tão longe assim

que não houvesse uma outra vez de te encontrar…

 

… e o tempo… sem pausa nem retorno

acrescentava a cada hora embriaguês

à sede insaciada de te voltar a ver…

 

… de te voltar a ter…

agora de tão perto… a meu lado…

como eu imaginara e pressentira

desde esse mais primeiro instante

-e para sempre-

na ânsia insana e ávida de te eternizar…

 

… e não tardaste muito!..., não!...

 

… nem eu tardei a dar-te forma e vida e cor

na tela de ti que te fiz minha

Rapariga do Brinco de Pérola

querida eleita de mim…

 

… meu tão mais doce e tão mais louco amor…!

 

- ARNALDO SILVA -

 

 

 

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