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Tuesday | by R. Motti
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Tuesday

A Ansiedade Veste Vermelho

 

Ela chega sempre antes de você. Vem em passos leves, sem fazer nenhum barulho, pra que eu não tenha tempo de fugir. Dominadora, não me deixa pensar em mais nada, me cega e ainda acha que tem o direito de apertar meu peito. Encontra facilmente o seu lugar dentro de mim, afinal já somos íntimas. Se encaixa devagar, sem que eu perceba e permanece ali por várias horas, as vezes dias, mas eu nunca sei exatamente onde ela está porque ela dança em todos os meus espaços vagos, torce meu estômago, fecha minha garganta, trava minhas mãos e faz meu coração bater tão rápido que chacoalha meu corpo inteiro embaralhando meus pensamentos. Ela me fascina e ao mesmo tempo me incomoda. Adora o gosto da minha tranqüilidade e a devora no primeiro instante. Odeia ficar quieta e como está colada em mim, me faz andar impaciente pela casa toda até despentear o meu cabelo e fazer com que eu me sinta feia. Nunca foi convidada, mas não se importa de ser entrona. É tão descolada e abusada que me dá até inveja. Quem dera eu também pudesse sair por aí seduzindo, invadindo corpos alheios e penetrando em qualquer pessoa que me parecesse atraente sem precisar pedir permissão, transformando o ser escolhido num território todo meu. Eu, que nunca a vi vestida, sempre a imagino usando um vestido vermelho, curto, justo e decotado. Roupa de quem está sempre pronta pra consumir toda a atenção ao seu redor. Já tentei matá-la com chá, comprimido, chocolate e terapia mas ela é forte e não se abala. Fica gritando no meu ouvido que paciência é coisa pra monge budista e o meu nirvana fica lá no piso de baixo. Me joga na cara que você não liga pra minha pressa e por isso eu deveria agradecê-la por me fazer companhia até a hora de você chegar. Quando ela faz muito peso em mim, eu fecho os olhos, respiro fundo e invento uma história pra tentar ser outra pessoa só pra ver se assim ela perde o interesse no meu corpo, mas não consigo. Ela só obedece ao seu comando. É só quando você chega que ela se cansa de me controlar, abre a porta pra você, se despede de mim com um sorriso cínico e vai embora.

 

Denise S.

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Taken on July 25, 2006