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"fragmentos inseparáveis"

Tentei aproveitar a luz, o momento... e, sentindo o "casamento", me inspirei e aproveitei

a inspiração de uma outra pessoa, através de seu texto... Obrigada, querido Mauro!!

 

"Hoje, abri minha caixa de recordações; caixa de papelão; em si mesma uma parte do passado.

Poucas coisas dentro, muito da vida concentrada.

 

Caixa de recordações é a coleção de cacos luzidios de nós, de modo que, jogá-la fora ou atirar ao lixo o seu conteúdo, é anular-se. Inteiramente ou aos pedaços.

 

Todos devíamos ter uma. Física. Tangível.

Virtuais?, não vale; imaginárias?, também não.

Guardam nossa história; seu interior acumula um patrimônio.

 

Ao contrário do que a maioria de nós pensa, não deverá receber apenas objetos que se ligam a prazeres.

Seu acervo deve conter papéis manchados de lágrimas, quem sabe, com gota de sangue; coexistirem, possivelmente, com os marcados ocasionalmente com pingo de saliva: onde faltar ossos, os prazeres da carne serão pequenos.

 

Há guardados que retêm adrenalinas, endorfinas, hormônios imperceptíveis somente à vista, muita vez misturados neles em iguais proporções.

O tempo sobre tais objetos traz o envelhecimento tão caro ao enófilo da Existência, e um terceiro sentimento a eles se agrega, sem chamar-lhe à degustação, por desnecessária.

Traz-se ao paladar, pelo contrário, o todo, o objeto em si.

Bochecha-se, reviram-se os olhos sob as pálpebras semicerradas, demora-se, mas não se faz a deglutição.

Já não tem a função da embriaguez, criptografada na imagem que retém, mas a de nos fazer avaliar a maturidade da cepa: o próprio dona da língua.

 

Amores frustrados sob um mail que diz 'não me procure mais', um pequeno novelo de cabelo fino e brilhante de um nosso filho que faz agora trinta anos, um envelope da comunicação do primeiro emprego, uma chave de porta que nem sabemos mais em qual esquadria se fixa e que, por isto mesmo, guarda um atrativo a mais e para sempre de um canto obscuro e importante de nossa memória - no caso desmemoriada -, tudo, lá dentro, vale bem mais do que a certeza cartesiana de que pensar é existir.

 

E, finalmente, tal caixa deve ser fechada e rapidamente, pois o cotidiano, esse menino para sempre jovem, está doido para nos lançar à aventura de mais um dia, matéria-prima de nós mesmos."

(Mauro T S)

 

(Repostando...)

 

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Taken on June 1, 2007