50 64 14 - Futebol: Ufanismo e Resistência
Partindo das relações entre futebol e política, a exposição traz um pouco das ambiências sócio-históricas da década de 50, do período da ditadura militar e do atual momento, enfocando o peso do futebol para a história da sociedade brasileira.
Sesc Ipiranga

Meu futebol, meu ufanismo, minha resistência

Ao ser convidado pelo SESC Ipiranga (bairro onde nasci, cresci e sempre morei) para ajudar na organização de uma exposição sobre futebol, ufanismo e resistência, eu imaginava, em princípio, contribuir com informações na área do esporte, aquela em que milito como jornalista e pesquisador já há mais de 20 anos. Aos poucos, porém, tudo foi se misturando.
Como separar as grandes vitórias e a tragédia final da Seleção Brasileira na primeira Copa do Mundo que o país sediou, em 1950, do clima populista que menos de três meses depois levaria o ex-ditador Getúlio Vargas de volta ao poder, daquela vez pelo voto direto?
Como dissociar o tricampeonato mundial de futebol na Copa do México, em 1970, da utilização política daquela paixão nacional por uma ditadura militar que já havia começado mais de seis anos antes e só terminaria quase 15 anos depois daquela grande conquista?
Como não se identificar com a campanha das Diretas-Já, se aos 16 anos eu mesmo havia formado muito de minha consciência política via futebol, a partir da identificação com meu maior ídolo, o jogador Sócrates, e seu engajamento no processo de redemocratização de nosso país?
Como separar, enfim, esse esporte de uma sociedade que sempre o viveu tão até mais intensamente, na maioria das vezes, que a política, para o bem e para o mal?
A resposta a todas essas perguntas veio para mim em forma de uma outra, que proponho neste momento em que nos preparamos para voltar a sediar a Copa do Mundo depois de 64 anos: separar por quê? Pessoalmente, participar deste trabalho foi a melhor maneira de provar que é possível, sim, gostar de futebol sem jamais perder a consciência de que ainda há tanto por se fazer em termos de resistência política. Um tríplice orgulho pessoal — como ipiranguista, como amante desse que é muito mais que um esporte, mas, sobretudo, como cidadão brasileiro.

Por Celso Unzelte
Curador

DE QUEM É A BOLA?

A fome, a doença, o esporte, a gincana.
A praia compensa o trabalho, a semana.
O chope, o cinema, o amor que atenua
o tiro no peito, o sangue na rua.
Sidney Miller

A década de 50 foi marcada por uma elaborada construção de símbolos nacionais, que se utilizou maciçamente do futebol e das ondas do rádio para consolidar um sentimento de nacionalismo ufanista. No ano em que o Brasil sediou a Copa do Mundo, com 50 milhões de habitantes, o país alimentava forte entusiasmo com o evento, como comprova a comoção com a derrota para o Uruguai no fatídico 16 de julho de 1950, em pleno Maracanã – o maior estádio do mundo na época, construído especialmente para aqueles jogos.
Em 1964, o país imergiu na ditadura militar e, no longo período compreendido até 1985, a seleção “canarinho” foi um dos instrumentos utilizados pelo regime, juntamente com outros meios de propaganda. Nesse sentido, a copa de 70 cumpriu papel emblemático, sendo a primeira transmitida ao vivo e em cores pela TV, quando o Brasil possuía população batendo a casa dos 90 milhões. A capitalização do êxito da seleção nacional possuía dupla função: de exaltação do período conhecido como Milagre Econômico e de escamoteação das agruras do regime. Os anos seguintes testemunharam o crescimento de movimentos de resistência e luta pela democratização, que tiveram reflexo no futebol de clubes e na seleção.
A força do futebol como fenômeno de massas reforça a importância da reflexão sobre sua natureza e os papéis que cumpre socialmente. No ano em que a Copa do Mundo retorna ao Brasil, o Sesc apresenta a exposição “50/64/14 Futebol: Ufanismo e Resistência”, com o intuito de fomentar o entendimento sobre os campos nos quais nos movemos cotidianamente.

Sesc SP

Ficha Técnica:

Idealização Equipe Sesc Ipiranga:
Carla Romano, Elder Deodorato, Gerson Luiz de Souza, Julio Cesar Pereira Junior, Rodrigo Borghi e Instrutores de Atividades Físicas

Concepção cenográfica Jefferson Duarte – Celophane Cultural

Curadoria: Celso Unzelt

Produção: Guete Oliveira e Kleber Mota
Moleka Produções e Eventos

Preparação das imagens: Raphael Santana
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