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Peanuts | by gui.tavares
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Peanuts

Talvez isto me atinja mais do que aos outros porque, afinal, ainda muito criança eu ganhei um bonecão do Snoopy, do meu tamanho na época, recheado de isopor. Mais adiante, pelos 6 ou 7 anos, ganhei o Paçoca, meu primeiro cachorro - e ele era um beagle - que me acompanhou durante 14 anos de crescimento e formação da personalidade.

Influenciado ou não, eu penso que nada traduz melhor a sutileza da relação entre homens e cães do que a obra de de Charles M. Schulz.

A mensagem é como o próprio traço do artista: limpa, simples e perspicaz ao extrair a essência do motivo.

A linha é precisa e, ainda assim, incerta, levemente trêmula: melancólica.

Ora, a relação entre humanos e caninos é inevitavelmente melancólica. Para os humanos na maior parte. Mas em especiais situações, também para os cães.

Essas situações, pequenos detalhes que contém em si a essência dessa amizade interespécies, é o que compõe a obra de Schulz.

A afetividade e o amor incondicional dos cães para com os humanos, em sua simplicidade, em sua ingenuidade, em contraponto à noção que temos da crueldade a que seres humanos são capazes, torna, na obra, essa relação bonita pela própria fragilidade. Mas não só isso.

É também a vida curta dos cães. Sabemos que ao deixarmo-nos cativar por um deles, estaremos fadados a lidar com sua ausência definitiva, em breve.

É a crueza - e daí a pureza - da relação que não envolve civilidade nem rodeios, nem qualquer sorte de ambigüidades. Daí a beleza, trágica e sincera.

As preocupações simples de um cão, as alegrias fáceis, a ausência de rancor e a profundidade do olhar são, em grande parte, a realização daquilo que, muitas vezes, gostaríamos de ser nós mesmos.

Ainda que sem abandonar as motivações caninas, Snoopy recebe uma carga de humanidade; enquanto Charlie Brown, sem deixar de ser humano, é também um pouco canino, em sua simpática inocência.

Charlie Brown é uma criança, é verdade. Mas a relação com nosso cão querido é sempre, afinal, infantil. E é bom que seja assim.

Fazendo esta mistura, Schulz mistura também o sentimento no leitor. Mesmo as tiras mais engraçadas têm alguma tristeza no ar, começam com risadas, gargalhadas, mas se acabam em suspiros.

Schulz conduz a comédia como um equilibrista sobre uma linha de nanquim sempre pronta a romper-se em lágrimas, mas nunca chega a tanto. Prevalece a graça.

É a pura essência, precisamente extraída da relação subjetiva entre homens e cães.

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Taken on November 19, 2007