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Igreja de Nossa Senhora do Rosário

A igreja do Rosário, situada na cidade de Ouro Preto (MG), constitui um enigma, na arquitetura colonial, até hoje não claramente resolvido. O seu traçado altamente erudito evoca as igrejas germânicas do tipo da Vierzehenheiligen, de Balthasar Neumann, ou as da Escola do Bregenzerwald e do lago de Constança, o Bodensee, parte suíço e parte alemão. As plantas circulares, elípticas, poligonais, iniciadas por Borromini, tiveram nos países germânicos desdobramentos notáveis e eruditos, não só na obra-prima de Neumann, mas também na Áustria (a Karlskirche, de Fischer Von Erlach), a Colegiada de Salzburgo, e tantas outras, que seria fastidioso enumerar. Em Portugal também encontramos exemplos: São Pedro dos Clérigos, no Porto, obra de Nasoni e outros. Em Minas o exemplar mais importante é o Rosário de Ouro Preto, cuja origem não é conhecida, nem mesmo o autor, pois pairam até hoje dúvidas quanto á atribuição. Há também, contemporânea do Rosário, a igreja de São Pedro, de Mariana, de autor igualmente incerto. No Rio havia a igreja, de São Pedro, de planta circular, hoje demolida, e subsiste a pequena capela da Lapa dos Mercadores e a linda igreja da Glória do Outeiro, embora poligonal. De autores, nenhuma informação. Como teria chegado ao Brasil uma planta sofisticada e erudita como a do Rosário de Ouro Preto? É uma pergunta até hoje sem resposta. Essa igreja, em planta, na estrutura da composição, organiza-se em três ovais intersecantes. determinando problemas complexos de encontro de superfícies, que foram magistralmente resolvidos. É de assinalar, em conseqüência, o magnífico espaço interior resultante. A investigação em torno do autor do projeto baseia-se inicialmente na informação do 2º vereador da Câmara de Mariana - escrita em 1790 -, o Capitão Joaquim José da Silva, que consta do célebre texto de Rodrigo José Ferreira Bretas, fonte fidedigna, cujas afirmações sempre foram confirmadas pela descoberta de documentos. Diz o Vereador de Mariana que o autor do risco foi Antônio Pereira de Sousa Calheiros, autor também do projeto de São Pedro de Mariana. Diogo de Vasconcellos acrescentou a essa informação que o risco foi fornecido em 1785, sem contudo citar a fonte. Rodrigo Melo Franco de Andrade comentou um documento encontrado por Francisco Antônio Lopes, relativo a esta igreja. Era um recibo de pagamento de 10 oitavas entregue ao tesoureiro da confraria por Manuel Francisco Araújo, pelo risco da empena e do frontispício, em 1784. É necessário ressaltar que este projeto se refere apenas à fachada. Não seria, o próprio templo, anterior? Mas Rodrigo Melo Franco de Andrade afirma que: "este documento, como outros relativos às despesas da Irmandade nos anos seguintes, impõem a conclusão de que a edificação do tempo atual se realizou apenas a partir daquele período". Finalmente, entre a publicação do livro de Germanin Bazin, "A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil" (edição francesa) e a mais recente tradução para a língua portuguesa, da Editora Record aqui citada, três documentos foram publicados no Volume III do Anuário do Museu da Inconfidência. Um deles refere-se ao construtor José Pereira dos Santos, que arrematara a obra da capela da Confraria do Rosário dos Pretos de Vila Rica e a de São Pedro de Mariana, conforme declarou em seu testamento de 1762. O contrato, foi na verdade firmado em 1763, assinado com José Pereira dos Santos e mais doze fiadores. Esse número extraordinário de fiadores parece ter sido necessário pelo estado precário de saúde do construtor. Esse, com efeito, faleceu no ano seguinte. Ao que parece, a descoberta de novos documentos só tem trazido mais obscuridade a um problema já de per si tão complicado. De qualquer forma, o importante não é tanto a descoberta de um nome de autor, que pouco acrescentaria ao valor da obra, senão o valor da obra em si própria, sua extrema singularidade e originalidade, considerando as condições de tempo e lugar em que ela foi criada. Talvez seja preferível que ela continue como está, envolvida pela bruma do passado e pelo perfume do mistério. Lourival Gomes Batista nos fala do aspecto social que teria motivado essa igreja, como forma de afirmação do negro... também no Rosário de Ouro Preto sempre houve "hu Rey e hua Rainha, ambos pretos de qualquer nassão que seja", parece-nos que assim se comprova a tese da função de afirmação social desempenhada pelas igrejas e irmandades na civilização do povo. Pretos e brancos, no mundo religioso, colocavam-se, como poderes soberanos vizinhos, em pé de igualdade.

  

A obra é toda em alvenaria de pedra e cantaria. O frontispício, curvo, é dividido em três partes, verticalmente por pilastras toscanas de cantaria estiradas, com pedestal, base, fuste e capitei. Entre as pilastras abrem-se três arcos redondos, no pavimento térreo, formando uma espécie de galilé, e no pavimento superior três portas-janelas, com sacadas de balaústres, ombreiras e vergas curvas em arco de círculo com cimalha moldurada. Sobre as pilastras corre o entablamento, acompanhando a constante curvilínea. Até o presente temos descrito uma ordenação de elementos clássicos. O barroco ressurge sobre o entablamento do corpo central, no lineamento de arcos compostos em arbalète e torcidos no acompanhar da convexidade da fachada. O óculo do frontão é outra forte nota barroca, bem como os consolos achatados no prumo das pilastras centrais. O remate do frontão possantemente emoldurado é a disposição "em altar" de dois coruchéus-castiçais, sempre na prumada das pilastras centrais e dos consolos, e a grande cruz sobre forte peanha e raios diagonais. Retraídas do corpo central, as duas torres redondas contêm as escadas de acesso às sineiras, com óculos circulares. Vestidas de quatro pilantras curtas e cobertas por cúpulas de alvenaria com pináculos, as torres terminam por dois grandes coruchéus. Uma vez entrados, pela simples grade, na galilé, penetramos na grande nave oval. Aqui o fôlego parece ter-se perdido, pelo menos em termos de barroco. Apesar do desapontamento que nos causa, o espaço permanece magnífico, suportado pelas mesmas pilastras clássicas do exterior e os elementos de cantaria. O próprio arco-cruzeiro, cuja proporção é a clássica, é despojado. É impossível que a Ordem dos Pretos do Rosário não tivesse recursos para as galas decorativas das igrejas brancas. Com efeito, aqui a obra de talha é pobre. Os altares laterais, à direita de quem entra (ou à esquerda do edifício), são dedicados a Santa Helena, a Santa Efigênia e a Santo Antônio da Núbia, e os da esquerda de quem entra, a Nossa Senhora Mãe dos Homens, a Santo Elesbão e a São Benedito. Os altares e retábulos são simplesmente pintados em "faiscado". O altar-mor e respectivos retábulos são peças modernas. Por trás da capela-mor acessível pelos corredores laterais à sacristia, existe um teto, pintado com umas cenas religiosas. Quando falamos em semelhanças formais com igrejas européias, devemos lembrar que os mestres portugueses que aqui trabalharam já nos chegavam formados e experientes, conhecedores dos mais variados partidos de composição. No caso do Rosário as semelhanças com as arquiteturas eruditas centro-européias esgotam-se, justamente, no partido e na planta, que é sua expressão direta. Há nessa obra a presença de forças opostas, que o artista assinalou num conjunto sintético e harmonioso. O clássico e o barroco completam-se, exaltam-se, na disciplina do cinturão de pilastras e na explosão do frontão livre e dinâmico como coroamento final.

 

Localização: Largo do Rosário, antigo bairro Caquende.

Data da construção: 1785.

Autor do projeto: Antônio Pereira de Sousa Caldeiros.

Proprietário: Arquidiocese de Mariana, administrada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.

Tombamento: Processo nº 75-T, Inscrição nº 248, Livro Belas-Artes, fls. 43. Data: 08.IX.1939.

Finalidade atual: Culto religioso.

  

Fonte: Guia dos Bens Tombados - Minas Gerais. 1984

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Taken on December 8, 2007