Pavan, Brito da Cunha e Frota-Pessoa: entrevista sobre André Dreyfus

O geneticista Crodowaldo Pavan em sua residência, em 14 de outubro de 2001.

 

Foto: Cely Carmo

 

Abaixo, confira a edição das três entrevistas que fiz, em outubro de 2001, com os geneticistas Crodowaldo Pavan, Antônio Brito da Cunha e Osvaldo Frota-Pessoa, colaboradores diretos de André Dreyfus durante anos. Eles relatam como foi o início da Genética no Brasil e falam da vida, do trabalho e da personalidade do mestre André Dreyfus.

 

Como vocês se interessaram por Biologia e como conheceram André Dreyfus?

 

Crodowaldo Pavan – Conheci Dreyfus em 1937, de forma muito interessante. Eu estava fazendo o “pré” da Escola Politécnica, curso de dois anos, logo após o ginásio. Antes de existir colegial, era assim. O curso era duro, puxado, mas consegui me sair bem. Queria fazer Engenharia Geológica, pois meu pai, Hen­rique Pavan, era industrial de porcelana e, na empresa, ele precisava trabalhar com materiais brasileiros, como argila, feldspato e caulim. Mas havia um pro­ble­ma no Brasil: os métodos de extração usados na Europa não funcionavam para esses materiais, e eu queria estudar novas técnicas.

 

Eu estava muito animado com o curso, mas quando assisti ao filme sobre a vida do Pasteur, A Vida de Louis Pasteur, com Paul Muni, fiquei apaixonado pelo trabalho desse cientista. Uma semana depois de ver o filme, fui a uma palestra do André Dreyfus na Biblioteca Municipal, na qual ele falava sobre vários temas, inclusive genética. Dreyfus era um conferencista muito conhecido e suas pales­tras eram extraordinárias, ficavam cheias de gente.

 

No fim da palestra, fui conversar com ele. Falei: “quero fazer o que o Pasteur fa­zia”. Ele perguntou o que eu estava cursando, e contei que estava na Poli­técnica, mas queria mudar de área. Ele disse que, para fazer o que Pasteur fazia, eu deveria fazer Medicina. Como fiz uma cara meio atrapalhada e disse que Medicina eu não queria fazer, ficamos conversando, e o Dreyfus disse: “você tem uma possibilidade de fazer História Natural, um curso novo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, com uma vantagem: além de Biologia, o curso tam­bém tem Mineralogia, Petrografia, Geologia e Paleontologia. Se você desistir dessa área, pode voltar para a Politécnica e continuar a Engenharia”.

 

Prestei vestibular no mesmo ano, tirei o segundo lugar e comecei o curso em 1938. Praticamente só havia professores estrangeiros, exceto Dreyfus, que era meu ídolo. Logo nos primeiros anos, fui estagiário dele, depois me tornei assistente. Infelizmente tive apenas 11 anos de contato direto com Dreyfus, como seu assistente, porque ele morreu em 1952. Fui contratado como funcionário do Departamento de Biologia da USP em 1951.

 

Antônio Brito da Cunha – Comecei a me interessar pela Biologia aos 12 ou 13 anos, com leitura de dois livros: A Ciência da Vida, dos dois Wells, pai e filho, e do Julian Huxley, que foi publicado pela José Olympio; e depois “Caçadores de Micróbios”, do Paul de Kruif, uma biografia dos grandes microbiologistas, em especial Louis Pasteur.

 

Fiquei sabendo da existência do curso de História Natural e resolvi fazer. Meu pai, Antônio Paulo da Cunha, era advogado e estranhou muito a escolha, porque naquela época a pessoa tinha que ser ou médico ou advogado ou engenheiro. Então ele foi conversar com o Julio de Mesquita Filho, um dos criadores da USP. O Julio lhe indicou o professor Paulo Sawaya, da Biologia, o qual lhe recomendou que me deixasse fazer o curso e, se eu não gostasse, teria tempo de sobra para fazer outra coisa.

 

Prestei vestibular, entrei na universidade em 1941, aos 15 anos, e foi aí que co­nheci Dreyfus, como aluno da História Natural. Depois fui estagiário dele e, quando me formei, tornei-me assistente do laboratório, trabalhando ao lado do Pavan e da Rosina de Barros.

 

Nessa época, ainda não havia o Regime de Tempo Integral para os professores, de modo que Dreyfus lecionava também na Escola Paulista de Medicina, na Faculdade de Odontologia, na Escola Livre de Sociologia e Política, além da Faculdade de Filosofia da USP, onde desenvolvia diversas pesquisas.

 

O Regime de Tempo Integral só foi criado em 1947, quando o biólogo José Reis era diretor do Departamento de Administração de Serviços Públicos (Dasp), órgão do Estado que se ocupava do funcionalismo público. Até então, os professores, para sobreviver, precisavam dar aulas em diversos lugares, o que dificultava as pesquisas. Com o Tempo Integral, André Dreyfus largou as outras facul­dades e se concentrou apenas na Faculdade de Filosofia da USP, para se dedicar à pesquisa.

Osvaldo Frota-Pessoa ­– Tive a oportunidade de conhecer Dreyfus em 1943, com a vinda do Dobzhanshy ao Brasil. O primeiro trabalho que eles realizaram juntos, com a participação do Pavan, foi um levantamento das espécies de Droso­phila existentes no Brasil, identificando as espécies já conhecidas e classificando as que eles iam descobrindo, por meio da Sistemática. Eles descobriram várias espécies novas.

 

Esse episódio explica porque acabei vindo para São Paulo. Eu havia terminado os cursos de Biologia, em 1938, e de Medicina, em 1941, na Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro. O Dreyfus era amigo dos pesquisadores de Manguinhos, entre eles o Lauro Travassos, professor de Zoolo­gia, que ajudou o grupo do Dreyfus e do Dobzhansky na classificação de Drosophila. Eles fizeram uma chave de classificação para identificação das espécies e, então, queriam pessoas não pertencentes ao grupo para verificar se aquela chave funcionava bem. O Travassos, então, indicou o meu nome e do meu colega Luiz Emydio de Mello Filho (mais tarde professor de Botânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), porque já trabalhávamos com Sistemática de insetos no Rio de Janeiro. Viemos para São Paulo e passamos quinze dias no prédio da USP na alameda Glete, trabalhando no laboratório do Dreyfus, com ele, Dobzhansky e Pavan.

 

Como eram as aulas do Dreyfus no curso de História Natural da USP?

 

Pavan – Ele era extraordinário, sob todos os aspectos: como professor, como ser humano, como pesquisador...

 

Brito da Cunha – Dreyfus era um professor fantástico e suas aulas, absolutamente perfeitas: estive em muitos lugares e nunca vi um professor tão bom. Ele tinha muito conhecimento e era capaz de expor os problemas com uma clareza fantástica. Nas aulas de Histologia, por exemplo, ele não só dava anatomia micros­cópica dos tecidos, mas também explicava o funcionamento do órgão e sua ori­gem embrionária. Ou seja, dava uma visão completa do órgão, expondo tudo com uma facilidade impressionante. Nunca deu uma aula sequer sem se preparar antes, marcando trechos dos livros e separando ilustrações para projetar. Foi o melhor professor que tive, um professor apaixonado pela arte de lecionar.

 

Como se deu a criação do primeiro grupo de pesquisas em Genética?

 

Pavan – Ironicamente, o Brasil teve sorte com uma desgraça mundial, a Segunda Guerra. A Fundação Rockefeller, por causa da guerra, não podia dar auxílio para a Ásia, para a África e muito menos para a Europa, então decidiram ajudar a América Latina. Em 1942, veio ao Brasil um representante da Fundação, Harry Miller Jr, diretor de Ciências Biológicas do órgão, e pude acompanhar de perto os primeiros contatos dele com Dreyfus. Recém-formado, eu trabalhava como assistente de Dreyfus e participei de dois almoços com o Miller, realizados no Automóvel Clube de São Paulo, na rua Formosa, do qual Dreyfus era sócio.

 

Lá, o Miller explicou que a Rockefeller estava disposta a ajudar o Departamento de Biologia da USP, e o primeiro passo era uma bolsa para que o Dreyfus fosse para os Estados Unidos, para uma temporada de um ano em laboratórios de seu interesse, tudo bancado pela Fundação. Dreyfus ficou animado, e eu muito mais, pois pensei: “o Dreyfus vai agora e, depois, quem vai sou eu”.

 

No dia seguinte, porém, o Dreyfus chega ao laboratório e diz: “um ano é muita coisa, não dá para passar tanto tempo fora, isso não vai dar certo”. Como ele era solteiro, tentamos todo jeito demovê-lo dessa idéia, dizendo que essa viagem seria importante para ele e para o laboratório.

 

Nesse dia, o Miller havia ido à Argentina e, na volta, fizemos um novo almoço no Automóvel Clube para que o Dreyfus desse sua resposta. O Miller quis saber o porquê da recusa, e ele respondeu: “O Pavan, que está aqui, e a Rosina, minha primeira-assistente, são muito jovens, e eles não podem tomar conta do la­bo­ratório durante um ano. Um semestre a gente pode ajeitar, mas um ano não dá”.

 

O Miller fez uma série de considerações e disse: “Vamos fazer o seguinte: tem um americano, na verdade um russo naturalizado americano, que está interessado em vir para a América Central, para ver a mata amazônica. Se vocês facilita­rem a vida dele na Amazônia, talvez eu consiga que ele venha para cá por seis meses”. O Dreyfus disse: “Isso é ótimo. Muito bem: quem é esse russo?”. O Miller respondeu, para surpresa do Dreyfus: “É o Theodosius Dobzhansky”.

 

Nós tínhamos acabado de dar um curso sobre o livro que ele havia publicado, Genetic and the Origin of Species, uma das obras mais célebres e polêmicas da época. Então o Dreyfus disse ao Miller: “Se você mandar o Dobzhan­shy para cá, eu não preciso ir para os Estados Unidos”. Ficou combinado as­sim: o Dobshansky viria passar seis meses no Brasil, depois o Dreyfus passaria uma temporada nos Estados Uni­dos. No ano seguinte, 1943, o Dobz­hansky chegou ao Brasil, dando início à pesquisa em Genética e Evolução.

 

Frota-Pessoa – Antes da vinda do Dobz­hansky, não existia pesquisa genética no Bra­sil. O Dreyfus conhecia o as­sunto so­mente com base nos livros. Mesmo assim, ele já havia inaugurado o Departamento de Biologia da USP dando ênfase à Genética. Tenho a im­pressão de que a Genética era, naquele tem­po, como a Biologia Molecular é hoje: fica todo mundo assanhado com as novas possibilidades.

 

A Genética foi criada em 1900, com a redescoberta dos trabalhos de Mendel, mas as pesquisas propriamente ditas só co­meçaram a deslanchar no início dos anos 1940. O Dobzhansky era um líder internacional na área, de modo que o Brasil reuniu o que havia de melhor – Dreyfus e Dobzhansky – no momento certo, para o estabelecimento da primeira escola de Ge­nética e Evolu­ção, com estudos de moscas de gênero Drosophila.

 

Dreyfus já fazia algum estudo em Ge­nética antes da vinda do Dobzhansky?

 

Brito da Cunha – Sim. Em 1937, por exemplo, publicou um trabalho sobre o verme parasita Rhabdias fulleborni, intitulado “Contribuição para o estudo do cyclo chromosomico e da determinação do sexo de Rhabdias fulleborni”. Mas, embora Dreyfus tenha sido “o pai da Genética Animal” no Brasil, cri­ando uma escola científica da área, seu trabalho acadêmico mais im­por­tante não foi em Genética: foi com uma vespa chamada Telenomus fariae, que parasita o ovo do barbeiro transmissor da Doença de Chagas e, por is­so, tinha grande interesse para a Me­dicina e a Saúde Pública. Dreyfus descobriu coisas muito interessantes sobre essa ves­pa: por exemplo, que a fecundação das fêmeas pelo macho é feita ainda dentro do ovo do barbeiro, de modo que, quando a vespinha sai do ovo do barbeiro – que morre –, ela já sai fecundada. Esse trabalho foi desenvolvido junto com a assistente Marta Breuer.

 

Pavan – Esse foi um trabalho extraordinario, com re­percussão internacional. A Marta era uma pessoa in­teressantíssima: havia sido membro da Escola Bau­haus e mulher do Marcel Breuer, o arquiteto mais famoso dessa escola. Infelizmente, vários trabalhos do Dreyfus se perderam na biblioteca do Instituto de Biologia da USP, acho que inclusive esse. Certa vez, uma bibliotecária resolveu jogar fora uma porção de trabalhos “velhos”. O material ficou jogado no corredor do Instituto, quando o Brito da Cunha soube e foi lá fazer um escândalo, mas já tinham levado muita coisa, muitos trabalhos do Dreyfus.

 

Que trabalhos Dreyfus desenvolveu junto com Dobzhansky?

 

Frota-Pessoa – Dobzhansky dedicava-se à Genética de Populações, ciência que une aspectos da Genética com a Teoria da Evolução. Para se estudar um animal ou uma planta por essa ciência, é preciso estudar a variabilidade da espécie, ou seja, como os genes de indivíduos da mesma espécie variam em diferentes lo­cais. Dobzhansky havia trabalhado com moscas Drosophila nos Estados Unidos, primeiro na Califórnia, depois ao longo das regiões montanhosas: estudava as diferenças genéticas que a espécie ia apresentando, e as relacionava com o me­canismo de evolução. O convite para visitar o Brasil veio a calhar para esse estudo, pois ele poderia avaliar a variabilidade genética de Drosophila da América do Sul. Já havia um estudo prévio de Sistemática de Drosophila da América do Sul, feita por um cientista alemão, e essa bibliografia era um bom começo para ajudá-lo a identificar as espécies brasileiras.

 

Brito da Cunha – Com a chegada do Dobzhansky e a decisão de estudarmos Drosophila, o primeiro passo foi a descrição de dezenas de espécies dessa mosca no Brasil e, então, a seleção das que potencialmente tinham mais interesse para os estudos de evolução. Drosophila willistone foi a mais estudada: eu e o Pavan começamos com estudos de variabilidade genética e, mais tarde, de variabilidade cromossômica. O Pavan estudava a parte genética e eu, a citológica, e fizemos descobertas interessantes. Descrevemos também novas espécies, como D. miller e D. dreyfusi, batizadas em homenagem a Harry Miller e a Dreyfus.

Paralelamente, o Pavan também estava desenvolvendo sua tese de doutoramento, sobre evolução dos bagres cegos, sob a orientação do Dreyfus. Antes de sua pes­quisa, pu­bli­cada em 1945, os bagres cegos eram descritos como sendo de gêne­ros dife­ren­tes do bagre comum. Pavan mostrou que o bagre cego nada mais é do que o resultado de uma mutação do bagre comum: eles sobrevivem em rios de cavernas, onde a visão não é necessária, sendo naturalmente selecionados pe­lo pro­cesso evolutivo.

 

Dobzhansky então veio uma segunda vez ao Brasil...

 

Pavan – Sim, mas antes disso o Dreyfus foi para os Estados Unidos, onde atuou no laboratório do Dobzhansky, em Nova York, na Universidade Columbia.

Brito da Cunha – O Dobzhansky voltou ao Brasil entre 1948 e 1949. Ficou aqui por um ano, dirigindo pesquisas sobre populações naturais de Drosophila. Pes­quisadores de vários lugares do Brasil vieram para a USP nessa ocasião, para apren­der com o Dobzhansky, todos com bolsa da Rockefeller: o Cordeiro, do Rio Grande do Sul, o Hans Burla (da Suíça, mas que atuou também no Brasil), a Sha­na Malagovkin e o Lagden Cavalcanti, da UFRJ, além de Newton Freire-Maia, que acabou se dedicando mais à Genética Humana, montando um laboratório em Curitiba, com grande produção científica nessa área. No prédio da alameda Glete, as condições físicas eram precárias: não cabia mais gente nos laboratórios. A Biologia ocupava até o sótão do prédio, que havia sido moradia dos empregados do industrial Jorge Street. Então, para receber o Dobzhansky dessa vez, eu e o Pavan conseguimos verba para escavar o porão, montando um laboratório lá, para que o Dobzhansky pudesse trabalhar com tanta gente.

 

Frota-Pessoa – Eu estava no Rio de Janeiro nessa época e visitei o Dobzhansky em São Paulo, mas não fiquei trabalhando com o grupo. Quando ele voltou para os Estados Unidos, daí começou uma série de viagens de pesquisadores bra­sileiros para lá, todos com bolsa da Fundação Rockefeller: Pavan (1945-46), Brito da Cunha (1949-51), Lagden Cavalcanti e muitos outros tiveram essa oportunidade. Eu fui em 1953, após a morte de Dreyfus, e fiquei um ano e meio no laboratório do Dobzhansky, ainda trabalhando com Drosophila.

 

Brito da Cunha – A Fundação Rockefeller também financiou a montagem dos laboratórios desses pesquisadores. Uma das exigências que ela fazia aos laboratórios em que aplicava recursos era a de que os professores deveriam traba­lhar em Regime de Tempo Integral, para que pudessem se dedicar à pesquisa. Antes disso, só a USP tinha o Tempo Integral e, diante dessa exigência, os Estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro passaram a adotar esse regime, o que foi um ganho para a ciência.

 

Dreyfus também foi um dos primeiros pesquisadores a defender a importância da divulgação científica. Qual foi sua contribuição nessa área?

 

Pavan – Quem conviveu com o Dreyfus sabe que ele foi um dos mais extraordinários divulgadores da ciência no Brasil. E fez mais: como diz o Frota-Pessoa, Dreyfus divulgou a divulgação da ciência. Ele não perdia um oportunidade de divulgar o que sabia. De vez em quando, ia engraxar os sapatos só para conversar com o engraxate: contava as coisas mais incríveis do mundo, inclusive teorias de Genética, de uma forma que o sujeito entendia. Quando tinha uma novidade qualquer, contava pro ascensorista, dava uma aula para os garçons dos restaurantes que freqüentava, e todo mundo o admirava muito.

 

O que ele gostava mesmo era de dar aulas e fazer palestras. Era convidado para falar em todo canto do país, e estava sempre à disposição. Essa também é uma forma de divulgação científica, em que o cientista se expõe ao grande público. Dreyfus era capaz tanto de fazer uma palestra especializada, como fazia no Ins­tituto Biológico e na própria Faculdade de Filosofia, quanto uma palestra popu­lar, em linguagem para leigos. Um exemplo é que ele era apaixonado pela Psicanálise, e dava belas aulas sobre o assunto, discutindo as idéias de Freud com maestria, mesmo sem nunca ter a intenção de atuar na área. Era fantástico: sua vocação natural era explicar as coisas, transmitir conhecimentos.

 

Na imprensa, ele fazia muitos artigos para a Revista Anhembi, entre outras pu­bli­cações de divulgação científica, mas não teve oportunidade de escrever regu­larmente para a grande imprensa – o que começou efetivamente com José Reis. No primeiro número dessa revista, em 1951, ele escreveu um belo artigo chamado “Amas de Sangue”, no qual discorreu, pela primeira vez na história da ciência brasileira, sobre a possibilidade das barrigas de aluguel.

 

Frota-Pessoa – Dreyfus escreveu para dois grandes jornais nas décadas de 30 e 40: em 1938, publicou o primeiro artigo de divulgação científica do país em um jornal popular: “Por que os filhos se parecem com os pais”, no Jornal do Brasil, em uma coluna chamada “A Ciência em Marcha”. Em 1948 e 1949, publicou diversos textos no jornal A Manhã , que contava com um suplemento chamado “Ciência para Todos”, no qual vários pesquisadores publicavam artigos sobre assuntos diversos.

 

Professor Frota-Pessoa, sua especialidade hoje é a Genética Médica. Esse inte­resse surgiu na época em que trabalhou com Dreyfus?

 

Frota-Pessoa – Não, foi depois de sua morte. Mas, sem dúvida, sem a base apreendida com o Dreyfus, eu não teria me interessado pela Genética humana. Quando voltei dos Estados Unidos para o Rio, aparentemente iria continuar a trabalhar com Drosophila. Mas com o início das pesquisas sobre cromossomos humanos, junto com o Paulo Henrique Saldanha, na USP, acabei me voltando para a Genética Médica. Estudamos doenças causadas pela falta, pelo excesso ou por alterações nos cromossomos, como a Síndrome de Down e a Doença do X Frágil, descrita por mim e que hoje continua sendo estudada na USP.

 

5,111 views
0 faves
1 comment
Taken on April 5, 2009