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Zeca Afonso | by Armando Caldas
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Zeca Afonso

A morte

Saiu à rua

Num dia assim

Naquele

Lugar sem nome

P'ra qualquer fim

 

Uma

Gota Rubra sobre a calçada

Cai

 

E um rio

De sangue

Dum

Peito aberto

Sai

 

O vento

Que dá nas canas

Do canavial

 

E a foice

Duma ceifeira

De Portugal

 

E o som

Da bigorna

Como

Um clarim do céu

 

Vão dizendo

Em toda a parte

O pintor morreu

 

Teu sangue,

Pintor, reclama

Outra morte

Igual

 

Só olho

Por olho e

Dente por dente

Vale

 

À lei assassina

À morte

Que te matou

 

Teu corpo

Pertence à terra

Que te abraçou

 

Aqui

Te afirmamos

Dente por dente

Assim

 

Que um dia

Rirá melhor

Quem rirá

Por fim

 

Na curva

Da estrada

Há covas

Feitas no chão

 

E em todas

Florirão rosas

Duma nação

 

*À memória do escultor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE.

 

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Taken on May 21, 2008