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alentejo, meu amor | by L_Luka
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alentejo, meu amor

Meu amor,

a casa está tão sozinha que

os pássaros vêm morrer lá dentro.

Nada mudou, mas falta

a mão para acariciar o gato

e acolher a ninhada secreta,

o sorriso que enchia o tanque

e fazia crescer a horta.

 

Já ninguém apanha as laranjas mais altas

ou usa a sombra da nogueira.

E até os ciprestes se tornaram redundantes

ao ponto de os abatermos:

a ausência diz-se melhor no esplendor

inútil das rosas sem esse olhar,

nas papoilas raras que duram

o tempo de uma fotografia.

 

Um dia, deixaremos também uma casa assim,

casulo abandonado a sobreviver-nos.

Um de nós escutará as asas ansiosas

na chaminé, antes de pousar o livro

e amparar o último pássaro.

Só parecerá menos triste

porque não teremos, então,

nada mais a perder.

 

Inês Dias

 

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obrigada R.C. pela poesia !

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Marvão - Portalegre

Portugal

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Taken on February 3, 2012