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O CIÚME... | by Mª Eugênia M. Guimarães
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O CIÚME...

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_TEORIAS GLOBAIS SOBRE O CIÚME_

 

A literatura mundial que trata do ciúme é abundante, e as divergências de opinião acerca do assunto também o são. Embora o conceito de ciúme tenha uma dimensão pluralística, no sentido de admitir a coexistência de vários princípios na tentativa de explicá-lo, é freqüente que os autores se respaldem na definição fornecida, em 1981, pelo autor Gregory White por contemplar um número maior de fatores e por ser menos contraditória em relação a todas as outras que lhe sucederam. É por essa razão que doravante buscaremos esboçar um breve panorama histórico de como tal conceito foi compreendido, a fim de que possamos nos aproximar de uma padronização conceitual, ao menos para os nossos objetivos.

 

Ciúme: um breve panorama histórico.

 

Numa perspectiva mais ampla, que remonta há aproximadamente vinte e quatro séculos atrás, Aristóteles (2001) definia o ciúme como o desejo de ter o que outra pessoa possui, isto é, originariamente ele era concebido como uma qualidade boa e se referia ao desejo de imitar uma nobre atitude característica de uma outra pessoa. Nesta acepção, o filósofo pensava o ciúme em termos de uma nobre inveja.

Mais tarde, encontramos nas referências bíblicas ilustrações que denotavam como o ciúme já tinha sido concebido como algo belicoso à boa vivência do amor. Salomão, em seu livro “Cântico dos Cânticos[1]”, acreditava que o amor era forte como a morte e o ciúme, concebido enquanto uma paixão, era cruel como um túmulo.

 

Treze séculos depois, o autor de epigramas, escritor clássico e moralista francês François de la Rochefoucauld[2] reconhecia no ciúme uma tendência egocêntrica ao dizer: há no ciúme mais amor-próprio do que amor. Este autor ainda identificava o amor como substrato para a gênese do ciúme: O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele. Rochefoucauld (2006) ainda associa o ciúme às grandes mazelas humanas, em suma, para ele, o maior de todos os males.

 

No século XIX, na Alemanha, o ciúme, era concebido por Freud como um estado emocional. Segundo Freud (1922/ 1976), “O ciúme é um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais” (p. 271). No texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, o autor faz uma distinção entre três tipos de ciúmes, o competitivo ou normal, o projetado e o delirante. Então, Freud (1922/1976, p. 271), escreveu sobre a projeção do ciúme:

O ciúme da segunda camada, o ciúme projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade, especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio, só se mantém em face de tentações contínuas. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá, não obstante, sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. Pode obter esse alívio - e, na verdade, a absolvição de sua consciência - se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade.

 

Assim, para este autor, o ciúme poderia estar associado, no próprio ciumento, com as suas próprias traições. Destarte, para Freud (Freud, 1922/1976) é o desejo e a possibilidade virtual de trair o parceiro que engendra em cada parceiro o próprio ciúme.

 

Em Paris, para Stendhal (1999), o ciúme tinha uma conotação negativa e estava atrelado à vaidade quando dizia que o que tornava a dor do ciúme tão aguda era a vaidade que não contribuía para nos ajudar a suportá-la.

 

Observa-se, na literatura científica, que estudos sistemáticos sobre o ciúme aumentaram significativamente a partir de 1977, quando da realização de reuniões anuais científicas que o incluíam como tema de estudo. Isto aconteceu, em especial nos eventos da Midwestern Psychological Association e da American Psychological Association. Atualmente este é uma das temáticas que mais cativa os pesquisadores em todo o mundo (Ramos & Spera, 1995).

 

Teorias a respeito do ciúme.

 

Tanto o amor como o ciúme, possuem uma extensa variedade de formas e explicações, sob diversos prismas. Focalizaremos algumas delas de acordo com os objetivos desta pesquisa.

 

Atualmente, alguns teóricos consideram o ciúme como sendo um sentimento (Albisetti, 1994; Cavalcante, 1997; Clanton & Smith, 1998; Gikovate, 1998; Pines, 1998; Pines & Aronson, 1983 e Shettel-Neuber, Bryson & Young, 1978) outros como uma emoção negativa (Lazarus, 1993; Mathes, 1992; Montreynaud, 1994; Savian, 2002; Shinyashiki & Dumêt, 2002), ou ainda, uma emoção aversiva (Buunk, 1991 e McIntosh & Tangri, 1989). Há os que o concebem como um complexo de pensamentos, emoções e ações (Clanton, 1998; Ferreira-Santos, 1998; Hupka, 1981; 1991; Parrot, 1991; Pfeiffer & Wong, 1989; Rydell, McConnell & Bringle, 2004; Sharpsteen, 1991, 1993; White, 1981b, 1984; White & Mullen, 1989 e Zammuner, 1995).

 

Para alguns autores, existem vários tipos de ciúme (Sheets & Wolfe, 2001), diversos graus de ciúme (Ramos, 1998; 2000; Shinyashiki & Dumêt, 2002), manifestações de ciúme distintas para homens e mulheres (Bringle & Buunk, 1986; Buss, 2000; Pines & Friedman, 1998; White & Mullen, 1989) e mais de um tipo de ciúme em relação a uma mesma pessoa amada (Gikovate, 1998). As pessoas também podem ficar mais ciumentas durante períodos de fracasso ou perda (Pittman, 1994). E ainda, podem-se ter ciúmes de objetos, coisas, animais e pessoas, em diferentes intensidades e com relação ao mesmo objeto valorizado de múltiplas maneiras (Almeida, 2005).

 

A teoria evolutiva e a etiologia do ciúme em relação à infidelidade.

 

Abstraindo-se nossas aspirações mais românticas, o amor seria uma espécie de contrato biológico entre um homem e uma mulher. Para a etologia, ciência que estuda as origens dos comportamentos dos seres humanos e animais, esse contrato determinaria que, em troca de recursos trazidos por um homem para garantir a alimentação, o abrigo e a proteção da mulher e dos filhos dele, esta, em contrapartida, disponibilizaria o seu útero, com exclusividade, à disposição do mesmo.

 

Contudo, a infidelidade parece que sempre rondou o amor entre as pessoas em todas as épocas, pois, segundo o que nos mostram as pesquisas (e.g. Daly, Wilson & Weghorst, 1982) a infidelidade é comum em todas as sociedades humanas conhecidas. Consoante Fisher (2006): “fomos constituídos para amar e amar novamente” (Fisher, 2006, p.193). Viscott (1996) aponta que existem tantos motivos que levam as pessoas a traírem seus parceiros quantos relacionamentos amorosos. Para este mesmo autor “trair é investir em outra pessoa aquela energia emocional e sexual [e demais recursos como tempo, dinheiro, etc] que deveria ser direcionada para seu parceiro” (Viscott, 1996, p. 193). Em uma de suas pesquisas Goldenberg (2006) indica que 60% dos homens e 47% das mulheres confessaram ter traído seus(suas) parceiros(as). Nesta mesma pesquisa, ao responderem se foram traídos, 41% das mulheres e 32% dos homens afirmaram que sim. As razoes apontadas para a infidelidade feminina foram: falta de amor, insatisfação, e ainda crise ou problemas no casamento. Entretanto, os homens apontaram, além dos mesmos motivos, outros como: natureza masculina, instinto, “aconteceu”, oportunidade, atração, desejo, vontade, tesão, testicolocefalia, não conseguir resistir, para não se arrepender das oportunidades que perdi.

 

Alberoni (1986) afirma que a princípio, ao escolher, ainda que inconscientemente, um parceiro afetivo, mesmo para aventuras breves, o que se procura é o prazer. Assim, segundo este autor pode-se dizer que o que se pede então ao objeto da escolha é que este seja essencialmente um fator de satisfação que reforce nosso comportamento de renovar a sua procura e nossos sentimentos e pensamentos amorosos por sua pessoa. Isto também pode explicar em partes o comprometimento dos parceiros numa relação amorosa e suas vicissitudes. Caso este mecanismo falhe, a relação cessa imediatamente ou com o passar do tempo. Assim, segundo Buss, Larsen, Westen e Semmelroth (1992), o ciúme então, pode ser compreendido como resultado de uma adaptação evolutiva a obstáculos experienciados por homens e mulheres em relação aos relacionamentos amorosos que constituíram ao longo do tempo. Desta forma, o ciúme estaria relacionado aos fatores de reprodução e à necessidade de garantia de paternidade (Ramos, 2000).

 

Para prolongar os efeitos do amor e maximizar a permanência do parceiro e dos seus recursos para o relacionamento, segundo a teoria evolutiva, homens e mulheres desenvolveram diferentes estratégias adaptativas para lidarem com a questão da infidelidade. Quanto às origens do ciúme, Buss (2000) explica que apesar de suas manifestações potencialmente perigosas ele teve um imprescindível valor adaptativo. Em épocas remotas, onde homens e mulheres dependiam exclusivamente uns dos outros para a sobrevivência, o ciúme atendia esta função de manutenção do relacionamento estabelecido. Por meio dele, homens ciumentos preservariam com uma maior probabilidade seus valiosos engajamentos tentando se assegurar que os filhos daquela relação eram de fato seus, garantindo assim a sua linhagem genética. No que diz respeito às mulheres, o ciúme seria um importante fator diferencial que lhes poderia assegurar um mantenedor para si e para sua prole. Segundo este raciocínio, a infidelidade representa com isso o desvio parcial de valiosos recursos. Naturalmente, estes mecanismos eram, e ainda o são, inconscientes para ambos os sexos. E diferentemente do que se pensa, homens e mulheres são eqüitativamente ciumentos, apenas diferindo, como dito anteriormente, na forma como ele se manifesta para os dois gêneros[3] (Buss, 2000; White & Mullen, 1989).

 

Atualmente, as condições de vida são bastante diferentes, principalmente quando comparadas com épocas ancestrais, e assim, as mulheres teoricamente não dependem dos recursos trazidos pelos homens, e conseqüentemente, uma mulher quando na condição de mãe solteira, não necessariamente está mais desamparada. Porém, como nossos cérebros são muito semelhantes aos dos nossos ancestrais, para os quais o ciúme foi uma característica evolutivamente adaptada, dentre outros mecanismos para assegurarem sua sobrevivência, nós ainda de certa forma, responderíamos como que instintivamente a alguns mesmos controles biológicos.

 

Consoante Ramos e Calegaro (2001), os seres humanos, homens e mulheres, desenvolveram diferentes estratégias para lidar com o problema da sobrevivência e da reprodução. Os homens, para se certificarem de que os filhos gerados em um relacionamento são verdadeiramente seus (o que tem conseqüências substanciais para sua auto-estima), têm o seu ciúme motivado pela suspeita de infidelidade sexual de sua mulher (Mullen & Martin, 1994). Ainda segundo Ramos e Calegaro (2001), as mulheres, diante do temor de que o companheiro possa se envolver emocionalmente com uma rival a ponto de dirigir seus investimentos materiais, afetivos e financeiros para esta pessoa, desenvolveram o ciúme como uma resposta apropriada para a manutenção deste relacionamento. Em outras palavras, em relação aos homens, a mulher ao longo do tempo aprendeu a desenvolver um ciúme mais emocional do que sexual.

 

Para entender melhor tudo isso, deve-se levar em consideração que os homens são capazes de inseminar inúmeras parceiras em curtos períodos. Entretanto, as mulheres são capazes de ter apenas poucos descendentes e assim, a maternidade pode ser considerada um dom, uma coisa rara do ponto de vista evolutivo, algo muito mais valioso que uma poupança dada a sua relação custo-benefício, sobretudo, para aquelas épocas ancestrais (Desteno, Bartlett, Braverman & Salovey, 2002). A idéia implicada aqui é a de fitness. Fitness refere-se à probabilidade de transmissão bem sucedida de material genético para gerações bem sucedidas e é conseqüentemente definida como fazer surgir descendência em idade sexual maturativa (Daly & Wilson, 1983; Dawkins, 1976).

 

A etologia afirma que o ciúme é um sentimento universal, e sua existência pode ser constatada nos mais diferentes povos e raças (Buss, 2000). Apesar das diferenças na sua forma de manifestação, essa universalidade sugere um componente genético. Dessa forma, alguns autores abordam o ciúme do ponto de vista evolutivo e dizem que ele é uma manifestação biológica inata, que tem a função de garantir a propagação dos genes e, conseqüentemente, a perpetuação da espécie, um provedor para a prole, no caso do gênero feminino, e, sobretudo, a garantia da paternidade para o gênero masculino (Buss, 1988, 2000; Buss, Angleitner, Oubaid & Buss, 1996; Buss, Larsen & Westen, 1996; Buss, Larsen, Westen & Semmelroth, 1992; Buss & Shackelford, 1997; Fisher, 1995; 2006).

 

Apesar de suas formas de manifestação serem até certo ponto idiossincráticas, não existe uma cultura na qual os indivíduos são desprovidos dos mais diversos tipos e graus de ciúme. Por exemplo, até mesmo entre os esquimós Ammassalik, da Groenlândia, considerada uma cultura sem ciúme, não é incomum que o marido mate o intruso que dorme com sua mulher (Buss, 2000). Um outro caso interessante a ser analisado é o da cultura islamita. No Islamismo, a poligamia é permitida. O homem pode se casar com até quatro mulheres, com a condição de que dê atenção igual a cada uma delas, o que sugere que há ciúme manifestado entre as parceiras. Contudo, é fato que, mesmo com a possibilidade de ter várias esposas, os homens não deixam de ter relações extraconjugais.

 

Algumas teorias de cunho sociológico e antropológico têm tentado desvendar uma origem cultural para o ciúme (Achté & Schakir, 1985; Bers & Rodin, 1984; Hupka, 1981; 1991; Hupka & Bank, 1996; Salovey & Rodin, 1984; Shweder & Haidt, 2000). Os argumentos mais comuns colocam as raízes do ciúme no capitalismo e na cobiça, afirmando que a busca por possuir bens materiais se estende a possuir outras pessoas. Se assim fosse, segundo Buss (2000), sociedades que vivenciam ou vivenciaram uma tentativa de socialismo experimentariam um declínio exponencial no ciúme, o que não ocorreu. Ainda segundo Buss (2000), também existe a tentativa de se interpretar o ciúme como uma falha de caráter, ou ainda, uma patologia produzida pela baixa auto-estima e imaturidade. Se os traços de personalidade originassem o ciúme, então, a simples mudança desses, deveria eliminá-lo. Conclui-se, portanto, que a universalidade do ciúme se explica por ele ser um produto evolutivo na interação entre os gêneros (filogenético), e não somente por ser um produto cultural (ontogenético), ou seja, para a sua configuração somam-se os componentes biológicos e culturais.

 

O ciúme enquanto um complexo cognitivo-comportamental.

 

Ao falar do ciúme, Barthes (1981) discorre sobre as ambigüidades vivenciadas pelas pessoas que por ele são afetadas. Por sua linha de raciocínio, percebe-se que o ciumento é ridicularizado e que, portanto, não é desejável. Pode-se inferir que o ciúme provoca sofrimento ao outro parceiro e mesmo assim, o ciúme corrói cada pessoa que o sente interiormente, ou seja, "sabe-se" uma coisa e "sente-se" outra, e muitas vezes não há uma correspondência do dizer-fazer. O racional duela com o emocional, de tal forma que ninguém pode saber ao certo quem ganhará e nem se pode torcer, a priori, por um deles.

 

Vamos agora partir para caracterizar tal complexo enquanto um fenômeno comportamental e cognitivo-sentimental. Como vimos com relação às definições dadas pela diversidade de teóricos estudados, as concepções de ciúme são diversas, porém uma mesma tríade conceitual as une:

 

1) ser uma reação frente a uma ameaça percebida;

2) haver um rival real ou imaginário e;

3) a reação visa diminuir, ou ainda, eliminar os riscos da perda do objeto amado.

 

Ramos (2000) aponta que há diferentes posições quanto a conceber o ciúme como uma combinação de outras emoções básicas, ou mesmo como uma categoria própria. Ferreira-Santos (1998) também ressalta que devido às múltiplas manifestações de ciúme por pessoas, e mesmo por objetos, fica muito difícil compreender a origem destas situações. Além disso, cada pessoa pode exprimir o seu ciúme de uma forma peculiar, ou seja, o vivencia do seu próprio jeito, dado que os evocadores, as reações, os sentimentos e as conseqüências são muito semelhantes para as pessoas ou grupos de pessoas.

 

De qualquer forma, uma reação somente é rotulada como ciúme se quem a experimenta possuir um relacionamento valorizado e, em seu entendimento, perceber que este vínculo está sendo ameaçado pela interferência de uma terceira pessoa, esta identificada como rival, independentemente do fato desta percepção ser baseada em fatos reais ou imaginários. “É, portanto, necessária a identificação da ameaça” (Ramos, 2000, p. 63). Berscheid e Fei (1998) complementam a discussão sobre a essência do ciúme ao concebê-lo enquanto relacionado a uma alta dependência do parceiro, todavia com uma alta insegurança a respeito de si mesmo, do parceiro e do próprio relacionamento.

 

Alguns autores como Clanton & Smith (1998) Tooby & Cosmides (1990) e White (1980; 1981a) citam possíveis preditores para o ciúme, tal como as diferenças na desejabilidade entre os parceiros (podem deixar em estado de alerta para uma possível infidelidade do(a) parceiro(a). Isto é, se alguém se sente inferior ao parceiro num relacionamento amoroso isto pode ser responsável pela hipervigilância em relação ao parceiro considerado mais desejável. Buss (2000), Waster, Traupmann e Walster (1978) e Walster, Walster e Berscheid (1978) argumentam que o parceiro mais desejável do casal é na verdade o mais propenso a se desgarrar, o que em partes justificaria o ciúme do outro parceiro. Esta hipótese também será testada pelo presente estudo.

 

Ciúme, possessão e a questão da profecia auto-realizadora.

 

No que tange a avaliação do ciúme pela literatura científica (e.g. Albisetti, 1994; Botura, 1996; Buunk, 1991; Cavalcante, 1997; Clanton & Smith, 1977; Gikovate, 1998; Ferreira-Santos, 1998; Lazarus, 1993; Mathes, 1992; McIntosh & Tangri, 1989; dentre outros) e pelo senso comum, percebe-se que na análise da literatura acadêmica, há a predominância da conceituação do ciúme enquanto uma relação afetiva negativa frente a uma ameaça ao relacionamento amoroso valorizado. De modo especial, Montreynaud é enfático ao dizer: “o ciúmes não é prova de amor, mas sinal de imaturidade” (Montreynaud, 1994, p. 40).

 

Em contrapartida, para as pessoas comuns, como atestam os estudos de Mullen & Martin (1994), há uma relação estreita entre o amor verdadeiro e o ciúme. Mesmo para outros teóricos tais como Ferreira-Santos (1998), Leonel (1993), Mathes (1991), Pittman (1994), Salazar, Couto, Gonçalves e Pereira (1996) e White e Mullen (1989), há a possibilidade de haver algum aspecto neutro, ou ainda positivo no ciúme, no sentido dele acarretar a aproximação do casal, como uma profícua estratégia de se lidar com uma situação ameaçadora. Entretanto, tal visão carece de uma maior fundamentação empírica. Para o senso comum, e, sobretudo, para a cultura brasileira, percebe-se a manutenção de um ambiente favorável às atitudes ciumentas. Isto é, os parceiros se vêem na obrigação de demonstrar ciúme como prova de amor (Ferreira-Santos, 1998). Os discursos apologéticos que são feitos para justificar as atitudes ciumentas no Brasil, segundo Goldenberg (2006), ainda podem estar relacionados de algumas mulheres perceberem como humilhante conviver com a solidão, ou ainda, estarem desprotegidas economicamente. Ainda, para Ferreira-Santos (1998), existe uma grande confusão entre ciúme e zelo, este sim, um sentimento que comprovaria o amor. Na verdade, pouco se sabe sobre experiências e comportamentos associados ao ciúme na população geral, mas num estudo populacional, todos os entrevistados (100%) responderam positivamente quando perguntados se já sentiram ciúme, embora menos de 10% reconheceu que este sentimento acarretava problemas no relacionamento (Mullen & Martin, 1994).

 

Na vida real, é sabido que muitos dos nossos comportamentos são largamente influenciados, e até mesmo governados por normas e/ou expectativas que funcionam como diretrizes para que as pessoas se comportem de determinada maneira em certa situação. Ao se refletir sobre expectativas que conduzem ao comportamento pensa-se logo em profecias auto-realizadoras. Estas profecias são, em resumo, definidas como crenças capazes de exercer influência sobre aqueles que nelas crêem: as pessoas mudam de atitude e se engajam em comportamentos que aumentam as chances de ocorrer aquilo que crê ou teme (Allport, 1950; Brophy, 1983; Copeland, 1994; Murray, Holmes & Griffin, 1996 a e b; Snyder, 1984). Então, seria possível considerar o ciúme como uma profecia auto-realizadora aos moldes do que Rosenthal & Jacobson (1968; 1982), ou mesmo que Merton (1948) conceberam? Será, então, que se é possível sugerir que o ciúme funciona como uma profecia auto-realizadora que produz a perda da qualidade nas relações amorosas, ou mesmo responsável, em fases ulteriores, pela ruptura das mesmas, induzindo os parceiros a se engajarem em comportamentos infiéis? O ciúme pode ser pensado em termos de uma profecia auto-realizadora preditora de perda da qualidade nas relações amorosas, ou mesmo responsável, em fases ulteriores, pela ruptura das mesmas, induzindo os parceiros a se engajarem em comportamentos infiéis? Infelizmente, até o presente momento não há qualquer estudo que tenha se ocupado em tematizar tal associação. Tendo como base esta linha de argumentação, este estudo, também, procurará verificar tal associação entre o ciúme romântico e a infidelidade amorosa.

 

Ciúme, amor, infidelidade e gênero.

 

Os resultados das pesquisas acerca do ciúme não evidenciam claramente que haja diferenças entre homens e mulheres (Desteno & Salovey, 1996; Harris, 2002, 2003; 2005; Hawkins, 1987; Sagarin, 2005; Shackelford, Buss & Bennett, 2002), e há pouco consenso entre os autores, que evidenciam que a mulher, freqüentemente, apresenta mais intensamente ciúme em comparação ao homem.

 

Todavia Buss (2000) nos sugere que homens e mulheres são igualmente ciumentos, mas os eventos desencadeadores de ciúme para cada um é que são diferentes: os homens ancestrais tinham um custo elevado com a paternidade, isso porque caso houvesse infidelidade por parte da mulher, eles se arriscariam a desperdiçar tempo, energia e outros investimentos enquanto a cortejaram. Também teriam perdido oportunidades com outras mulheres enquanto se dedicavam a apenas uma, além do esforço materno que teria sido desviado para a prole de um rival, e, principalmente, se arriscariam a dedicar cuidados paternos a essa prole, julgando erroneamente ser sua.

 

E se o homem ancestral fazia um grande investimento ao aderir a um relacionamento amoroso, a mulher fazia um investimento ainda maior com a maternidade, uma vez que cada gravidez durava nove meses. Além disso, se arriscar a perder o investimento ou uma parte do investimento do parceiro que desviasse seus “recursos” à outra mulher (com quem ele tivesse um caso). Isto poderia ser extremamente danoso, pois esse desvio ocorreria à custa da sobrevivência dela e de seus filhos. Isso era muito mais grave, se forem consideradas as épocas ancestrais de frio, estiagem, escassez de alimentos, onde as possibilidades de sobrevivência eram baixas. Para a mulher o indicador mais confiável do desvio de investimento não seria o homem ter sexo com outra mulher, mas ele ter envolvimento emocional com ela. O envolvimento emocional poderia servir para avaliar a qualidade do compromisso. Para as mulheres a posse dos seus homens é ameaçada por rivais que corporificam o que os homens querem.

 

Ainda, ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos, como DeSteno & Salovey, 1996 e Harris & Christenfeld, 1996(a e b), pelo menos na cultura ocidental, a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual, isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (DeSteno & Salovey, 1996). Todavia, consoante Sheets e Wolfe (2001), a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor.

 

De todas as características que são pesquisadas no que diz respeito à infidelidade, o gênero parece ser o mais consistente dos fatores que predizem: os homens como os que traem mais (Buss & Shackelford, 1997). E mesmo entre homens que têm casos, em relação às mulheres que também os têm, os homens as superam em termos de quantidade (Lawson, 1988).

 

Ciúme e a discussão Nature X Nurture.

 

Outra dúvida suscitada pela temática abordada é a de que se o ciúme é inato ou aprendido. Buunk, Angleitner, Oubaid e Buss (1996), Geary, Rumsey, Bow-Thomas e Hoard (1995) e Wiederman e Kendall (1999) acreditam que seja inato, embora as suas manifestações específicas sejam aprendidas. A cultura aqui desempenharia um papel fundamental por modelar as diversas representações do ciúme.

 

Uma visão que se quer apontar ao discutir se é o ciúme inato ou aprendido, benéfico ou danoso aos relacionamentos amorosos, é a de que ele é fundamentalmente egoísta à medida que leva o(a) seu(sua) possuidor(a) a agir visando com isso tolher os direitos da pessoa a ela vinculada. Isto é, quando o ciúme se manifesta, não visa proteger o outro, como erroneamente costuma se pensar, e sim se preservar a si mesmo de futuras preocupações que lhe sejam custosas no investimento amoroso realizado. O que mascara esta constatação é o fato de pensar que o ciúme é exercido em nome do amor e de uma “altruística” preocupação com o bem estar do outro de forma que per se parece autorizar a interferir sobre o destino do(a) parceiro(a).

 

Cultura e patologias relacionadas ao ciúme.

 

E dado o seu polimorfsmo, percebe-se que o ciúme exibe as características de cada época, de cada cultura, o que torna difícil diagnosticá-lo como uma doença, por não ter um padrão fixo para se revelar. E um dos pontos mais notáveis no que diz respeito ao ciúme, e mesmo no que diz respeito à infidelidade é que eles estão presentes em todas as culturas e em todas as épocas. Todavia, consoante Ferreira-Santos (1998), o sofrimento é o que fundamenta e anuncia quando o ciúme deixa de estar no limite da normalidade e avança causando mal-estar, repetindo-se obsessivamente e compulsivamente, até que provavelmente, arruíne a vida das partes envolvidas. Muitos dos que se relacionam amorosamente não pensam nos desdobramentos do amor como um possível aparecimento do ciúme. Muitas vezes, a dor, acompanhada de um inerente sofrimento para ambas, ou ao menos uma das partes envolvidas poderiam pensar os etólogos, não invalida suas funções positivas para a sobrevivência. Principalmente, no contexto brasileiro, muitos dos que são objeto de um ciúme, dependendo do grau e de acordo com seus históricos de vida, sentem-se lisonjeados em granjear este tipo de atenção para elas mesmas (Ferreira-Santos, 1998). Contudo, não devemos deixar escamotear a nossa percepção e deixar passar despercebido o número de caso de violência doméstica, crimes passionais, dentre outros fatos comentados pelos noticiários diários, ou mesmo citados e estudados pela literatura científica, (Daly & Wilson, 1988; Hannawa, Spitzberg, Wiering & Teranishi, 2006; Mullen, 1996). O Ciúme Patológico pode até motivar homicídios, e muitas dessas pessoas sequer chegam aos serviços médicos (Shepherd, 1961). Para Palermo et al (1997), a maioria dos homicídios seguidos de suicídio são crimes de paixão, ou seja, relacionados a idéias delirantes de ciúme intenso ou excessivo (Palermo et al, 1997). São, geralmente, crimes cometidos por homens (mas, isso não exclui as mulheres do problema) com algum problema psicológico, desde transtornos de personalidade, alcoolismo, drogas, depressão, obsessão, até a franca esquizofrenia. Desta forma, pode-se inferir que são os excessos e estes, desequilíbrios, por exemplo, aliados ao ciúme é que causam as nefastas conseqüências para os relacionamentos amorosos e não o ciúme em si.

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Taken on May 13, 2008