Chartreuse
Em 24 de março de 1997, repórteres de celebridade e editores de moda do mundo inteiro pensaram que Nicole Kidman tinha se excedido em todas as regras do bom Oscar – uns para bem, outros para o mal. Para acompanhar o então marido, Tom Cruise, indicado ao prêmio de melhor ator pelo papel em Jerry Maguire, a atriz pisou no tapete vermelho diante do Shrine Auditorium com um vestido de alta costura Christian Dior. Não era um vestido qualquer. Nicole escolheu o modelo Absinthe, o vigésimo look no line up da primeira coleção de John Galliano para a maison francesa. Inspirado nos figurinos da Ópera de Pequim, o modelo de cetim de seda tinha mink como vivo das fendas laterais e uma cascata de pingentes de seda sobre as costas de chenille. Bordados água-marinha e safira no corpo do vestido valorizavam os olhos azuis de Nicole, que, contrariando a regra de que ruivas devem preferir batons suaves, usava um batom vermelho-vivo. Mas nada disso causou espanto. O que provocou Joan Rivers, apresentadora do canal E!, a dizer ao vivo "nossa, que vestido horrível!", foi o tom da seda. "É preciso coragem para usar chartreuse no Oscar", declarou a repórter Laurie Pike, de um canal de TV de Los Angeles. "Lindo!", fechou a Vogue América, que estampou o vestido de 30 mil dólares na edição de março do mesmo ano. Embora o nome do modelo fosse Absinto – numa referência ao destilado de alto teor alcóolico, a 'Fada Verde', favorito de poetas como Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud – a cor deve o nome à outra bebida igualmente enebriante: o licor Chartreuse. Produzido por monges cartuxos, de uma ordem cristã fundada em 1084, o Chartreuse é de um verde-ácido quase amarelado – tão especial que acabou batizando o tom na palheta. Criado em 1764, o Chartreuse Verte leva 130 tipos de ervas e tem 55% de teor alcóolico – 16% a menos do que a receita original, vendida como remédio e chamada de Chartreuse Elixir. Ambos são produzidos até hoje na destilaria de Voiron, França, e a venda permite que os monges levem uma vida reclusa. Vendida como remédio com 71% de teor alcóolico, a receita original foi decifrada em 1737, quase um século depois de o manuscrito antigo, "Elixir da Longa Vida", ser entregue ao monges por um oficial do exército do rei Henrique IV. Em 1838, uma nova versão do licor foi inventada, com 40% de álcool: o Chartreuse Jaune. Amarelo, mais doce e mais suave, é preferido pelas mulheres. Por sorte, Nicole Kidman preferiu o chartreuse original. Caso contrário, a aparição na 69a. edição do Oscar jamais entraria para a história da moda.
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