Olhar Analógico em um Mundo Digital
Como este ensaio surgiu?
No início, a produção deste ensaio fotográfico se propunha a registrar os diversos usos do laboratório de revelação P&B por alunos e professores da universidade. A ideia era compor um ensaio memória, por meio de fotografias e textos, que revelasse o quão significativo é este espaço para a expressão artística e criativa da comunidade acadêmica, além reiterar a importância da preservação de espaços com estes para o fortalecimento da arte.
Contudo, quando apresentei a proposta do projeto aos meus professores, foi me solicitado adequar a proposta deste ensaio a linha editorial da Revista 50+, periódico produzido pela Agecom em comemoração aos 50 anos da Universidade. Para tanto, o desafio foi pensar os processos analógicos como uma possibilidade de futuro e expressar essa ideia com a construção de um ensaio.
Conversei com a professora Myra Gonçalves, do curso de Fotografia, que me orientou para possíveis formas de realizar essa discussão. Decidimos convidar a Mona Lisa, aluna já formada no curso de fotografia da instituição, para compor o ensaio, pois ela realiza um trabalho fotográfico e artístico a partir de métodos analógicos e digitais, ou seja, ela mescla essas duas vertentes propondo, assim, uma nova forma de pensar o analógico na contemporaneidade.
Fotografei a Mona utilizando o laboratório de revelação e após a entrevistei, questionando-a sobre sua opinião frente ao tema central do ensaio. Deste modo, o texto que acompanha as fotografias é fruto desta nossa conversa, além de trazer as vivencias da Mona para constituição da narrativa.
O Ensaio revela que cada pessoa, com suas relações especificas com a fotografia e o mundo da arte, irá se relacionar de forma singular com o Laboratório de Revelação, lhe dando vida e personalidade. Além disso, deixa como mensagem que um olhar analógico não é ultrapassado, mas uma visão reconfigurada frente as possibilidades estéticas e criativas do mundo atual.

Texto concito:
Do analógico ao digital percebemos um grande salto nos mecanismos de produção de imagens que modificaram não apenas a qualidade das produções, mas também a facilidade ao acesso e a praticidade para sua utilização. Sem dúvidas, vivemos a era da fotografia digital, onde todos temos uma câmera fotográfica, ou um celular capaz de tirar fotos. Deste modo, imaginar um possível futuro para a fotografia analógica pode parecer um tanto inconsciente e desconexo, não é verdade? Contudo, a fotógrafa Mona Lisa Locks, protagonista deste ensaio, nos mostra possíveis perspectivas para se pensar o analógico na contemporaneidade.
Mona Lisa, filha de uma artista plástica, nasceu e cresceu em um universo artístico. Embora sua mãe fosse pintora, ela nunca conseguiu se expressar através das tintas e dos pincéis. Aos 12 anos, Mona ganhou uma câmera fotógrafica analógica do irmão e passou a ser a fotógrafa oficial da família, registrando tudo que passasse por seu olhar. Os anos ao lado de sua câmera fizeram seu amor pela arte crescer, embora ela ainda não percebesse suas fotografias como manifestações artísticas.
Em 2012, após insistir em cursos que não prosperaram, Mona retornou a Universidade Feevale para cursar Fotografia. “As primeiras disciplinas do curso já me realizaram, mas o grande encanto foi descobrir os processos analógicos no laboratório de revelação. Revelar para mim virou uma mágica. Foi no laboratório de revelação da Universidade Feevale que eu me descobri analógica, que eu me descobri artista. Estava muito enraizado, através da convivência com minha mãe, de que artista só poderia pintar com tinta, mas na verdade, agora estou pintando com luz”, revelou Mona Lisa.
Através do curso de Fotografia e do Laboratório de Revelação, Mona passou a vivenciar os processos analógicos aliado às tecnologias digitais. Ela não opôs os modos de produção de uma imagem, distinguindo o analógico como passado e o digital como futuro, mas apropriou-se das duas vertentes como uma forma de expandir sua fotografia. Conforme ela destaca, “para vivenciar o analógico hoje, eu preciso dos equipamentos digitais, preciso da impressora, do computador, de energia elétrica e de bateria”.
Muitas vezes é através de um arquivo digital que ela inicia seus processos analógicos. Primeiramente ela importa o arquivo digital no Photoshop transformando-o em negativo, após imprime este arquivo em uma lâmina transparente e por fim produz cópias à partir deste negativo no laboratório de revelação. Ou seja, uma fotografia tanto analógica, quanto digital.
De fato, os laboratórios de revelação preto e branco deixaram de ser o foco do mercado fotográfico atual, porém podem se tornar um espaço para experimentação para artistas e apaixonados por fotografia. Para Mona “com a velocidade do digital, alguns artistas e fotógrafos foram se cansando, porque torna tudo muito igual e repetitivo. Então começaram a voltar aos processos analógicos, buscando uma forma alternativa, fora do padrão atual de fazer fotografia e de fazer arte”. Hoje as pessoas têm acesso a uma fotografia pronta que surge nas telas das câmeras e dos celulares. Poucos se questionam sobre o que é uma imagem e como ela surgiu. Segunda Mona, “o digital, hoje, é tão instantâneo e tão rápido que as imagens se repetem. As fotografias passam a ser cópias de cópias. Ninguém mais produz uma imagem sem bateria ou energia elétrica”.
Portanto, ao pensarmos em um futuro analógico não estamos dizendo que ele se sobressairá ao digital, mas nos opondo, de certa forma, a uma ideia inconsciente e repetitiva de produção de imagens. É neste sentido que Mona Lisa acredita “que o mundo dos processos históricos e alternativos e o da era digital da fotografia vão coexistir, e que ambos ainda terão muitos pontos de encontros. A fotografia analógica é uma forma de criação poética que não se opõe à tecnologia digital. A fotografia digital é uma continuação de uma sequência histórica e, assim, permito-me fazer uma analogia: a fotografia é uma árvore de muitos galhos e não há a necessidade de podar qualquer um que seja”.
11 photos · 66 views