Acordei sem inspiração, sem motivação, sem encontrar nexo na luz ou clareza no dia. Não vi o belo raio de sol entrando pela janela leste, não me admirei com a paisagem do lado norte, aquela que aparece apenas o topo de uma árvore, resplandecendo seu verde encanto, em meio ao grande azul do céu.
Acordei por acordar e senti que não havia sentido em nada: nem na cor, nem na textura, nem no cheiro do dia. Era eu e mais nada. O nada acompanhado de mim atravessou o dia, cumprimentou pessoas, acenou a cabeça educadamente quando lhe dirigiam uma pequena palavra, chegou mesmo a balbuciar, ao garçom, algo incompreensível durante o almoço.
Nenhum compromisso assinalava a minha tarde. Ri. Risada pequena, comedida, não fica bem um cara triste como eu rir alto. Andei pela rua a tarde toda de mãos dadas com o vento sempre frio. Desviei da luz, dos cachorros e das crianças. Sentei-me a praça, perto de casa, como se depois de uma longa caminhada eu tivesse apenas dado milhares de voltas.
Comecei a contar as crianças que brincavam, as babás, os carrinhos de bêbe, as árvores, os troncos quebrados, as folhas caídas e aquelas que bravamente resistiam ao vento cada vez mais forte. Contei os dias do ano, as horas e todos os pequenos segundos abrigados nos não tão grandes minutos da vida. Contei até desgastar os números ou extinguir o encanto em contar ou apenas parei por parar.
Levantei-me com a luz avermelhada lambendo o horizonte e comecei a dar incontáveis passos em direção a minha casa.
A porta aberta, a TV ligada, o rádio fora de estação e as gravuras desalinhadas na parede já necessitada de tinta. Atravessei o pântano da sala em direção ao quarto. Deitei-me na cama desarrumada. Encaixei meu corpo em tua fôrma. Fechei os olhos e desejei a sua volta.
Osvaldo Santos Lima