Sempre que leio ou escuto alguém recitar os versos de Augusto dos Anjos, enaltecendo o pé de tamarindo - sob cujos galhos ele aprendera as lições com o pai e escrevera os seus primeiros versos -, lembro do tamarindo da minha infância. Verde, imponente. Ficava em frente da casa grande, antiga e branca, da Barra, o sítio dos meus avós. Ficava, não. Ainda fica. O tamarindo permanece vivo, presenciando a passagem das gerações de nossa família. Nunca soube quem o plantou. Mas, quem o fez, deixou-me uma sentinela, presente, a me iluminar os passos, na senda de minha vida.
Sua imagem é indissociável da casa branca da Barra, das minhas lembranças de infância. Lembrarei sempre que preciso for, quando sentada sob o enorme alpendre, contemplava comovida sua copa, seus amplos braços verdes planando e roçando o vento do Aracati.
Não há cartão postal que se compare às cores das minhas alvoradas, aos raios do meu sol particular que, tal como fios de ouro, tecia minhas inesquecíveis manhãs por entre-galhos do tamarindo. Sob a sua sombra rendada, protegia-me do calor do meio dia. Sob sua ramagem, abrigáva-me da chuva. Quantas vezes, sob a sua copa, abria a saia para aparar seus frutos. E do teu ácido tartárico hidratava minha boca, matava minha fome. Em seu tronco, gravei meu nome, escalei, cacei ninhos de passarinhos (coitados!). E vi tantos ocuparem o meu espaço íntimo, onde visitantes amarravam seus cavalos e transeuntes, cansados da lida e da estrada, faziam sua pousada.
Meu tamarindo sagrado, testemunha muda de segredos invioláveis do meu povo. Quantas histórias, causos e folclores misturados à tua imagem. Jamais esquecerei dos vagalumes, circundando-te na escuridão da noite. Nem das lendas de almas penadas que circulavam teu perímetro. Jamais, em tempo algum, esquecerei de teus braços cortando a brisa, nem de tuas folhas cobrindo o meu chão. Jamais.