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HISTÓRIA DA CAMA (1)
Florzinhas cotidianas 1748
HISTÓRIA DA CAMA
Conta-se que ficar na cama é fruto de desculpa esfarrapada, para uns; para outros, é um imperativo do corpo, mais até do que da mente. Mas de qual tipo se fala, se há camas de solteiro e de casado ? se há camas para um só dia e para mais longas estadias? se há camas chamadas de maca, cuja estrutura pode ser para os hospitais em tempo de paz, ou modificadas para tempos de guerra ? A minha cama é debaixo da ponte do Antão; tu te deitas com ponte de safena.
De qual delas se fala ? Sabe-se que a igreja condena este apetrecho cotidiano, por julgá-lo receptor da volúpia, sicário da preguiça, vassalo da corrupção, ímã total para o abominável sexo, ou jogos florais, hehehe... só patologia e sinonímia capazes de reger o mundo de tantas pessoas, se não o de todas as pessoas. Sim, este arrazoado é antigo, é do tempo em que nas cavernas o cocô dos morcegos forrava o chão dos primeiros humanos que estendiam palhas e couros para dormir, comer, beber, guerrear, grunhir, sorrir, fornicar e jogar - jogar é antigo, tem mil tempos mais do que o seu nome latino Homo ludens, mas não se sabe quando o Homem começou a sorrir, e deixou de sorrir.
Tanto a antropologia quanto o alfabeto nos fazem saber algo a respeito do por quê certas coisas vieram e ficaram como necessidades do Homem, mas o mesmo não se pode dizer da inútil paisagem forjada pela psicologia clínica quando, por exemplo, intenta explicar o que há de belicoso nos humanos, que no entanto mantêm a sua tendência ao belo, e a outras tangências rumo a tantas outras histórias das infâmias universais.
A cama, Senhoras e Senhores, ainda que seja ela a mais coerente sensação dentre todas as suas divagações, e o mais escondido dos segredos, precisa que se lhe feche de vez em quando as pernas, porque não é possível ficar na cama a vida inteira; portanto, Senhoras e Senhores, que se lhe dê de ombros ou as costas de vez em quando, como fazemos com alguma canção ou um livro que deixamos de lado por algum tempo, devido ao uso contínuo ou ao fato de não se concordar mais com ele, quando não pelo fato de algo melhor ter surgido.
A cama é espera, é certeza absoluta de palpitações, da farra inenarrável algazarra que sobre nós arremete com o seu domínio inexorável de sexo e morte – porque o amor parece que está morto, ou vacilando nalguma esquina, como um fugitivo. Pobre amor. Estuda-se até a exaustão a libido, mas a libido é algo assim como é no futebol: quem entende tudo mesmo de futebol é a bola. A libido não é jogo, mas conjunto de sensações químicas e psíquicas único, não é algo só para beber, comer, guerrear, grunhir, fornicar e dormir, e não será na cama que terás a resposta, se é que resposta plausível existe para isso, para esta sina de nome cama, e se é que procuras alguma resposta para essa vida boa nela.
Quando se inventará e se fará algum inventário do riso ? Resolverá algo o riso ? Será vendido a quanto o riso ? Diz-se que o melhor riso é aquele que explode na cama, que comove o ogro e a dama, aquele que vaza paredes, vai ao mundo, às nuvens, ao diabo... portanto, respeitável público, Senhoras e Senhores, Amadas e Caros, vamos à cama e fiquemos por lá, ouvindo passarinhos, soltando pipas, bebendo realidades e sonhos. Sonhos.
Texto: DMC
Foto: www.google.com.br/search?q=fotos+de+camas&hl=pt-BR&am...
Uploaded on Jan 30, 2012
quibe assado: para a tarde // noite de domingo
Florzinhas cotidianas 1747
A(S) VISITA(S) E O KIBE
Nós vamos lá sempre que possível, eu e o outro que em mim habita, mas que em parte se esconde de mim, e totalmente dos outros, da sociedade em geral, mas não de quem visitamos amiúde, pois sempre que possível vamos à casa dela que é ferreira, dando duro numa pequena forja erguida no seu quintal todo cheio de pés de goiaba, manga e jaboticaba, flores a granel e por atacado, tanto que beija flores e borboletas vivem de pileque por lá, sem falar nas visitas humanas, sim, nós vamos lá comer as brasas de que certas palavras e certos silêncios são capazes, abrindo um e outro limão taiti ou limão capeta para umedecer o quibe assado daquela assadeira sem igual, com um fogo colossal, ela nos acolhe, a mim e ao outro que eu sou, mas que não se mostra a ninguém... e por lá ficamos, até que seja mesmo hora de partir.
*****
NOSSAS VISITANTES E O QUIBE NOSSO DE QUASE SEMPRE
Elas vêm aqui sempre que possível, visitar a mim e ao outro que me habita, mas que em parte se esconde de mim, e totalmente se esconde dos outros, da sociedade em geral, mas não dessas visitas que aqui vêm saborear quibes e algo mais, sim, elas vêm aqui comer as brasas de que certas palavras e certos silêncios são capazes, abrindo um e outro limão taiti com que umedecer o kibe assado, também há bastante azeite, folhas frescas de hortelã e molho de pimenta, pão e risos que fazem a rua estremecer de inveja e ira.
DMC
O álbum "COMER & BEBER / FOOD & BEVERAGE: picasaweb.google.com/darlan.in/COMERBEBERFOODBEVERAGE
Uploaded on Jan 29, 2012
montar
MAO - Museu de Artes e Ofícios. Belo Horizonte, MG, Brasil.
Florzinhas cotidianas 1746
MONTAR
montar no mundo e ir às cúpulas
russas, cebolas multicores, ir
no lombo do vento, saltando riachos
e outros desafios, lona de circo
e temporais pelo caminho, carro
enguiçado e mula empacada na terra
do benvirá, na terra da gula sem fim
a varanda do pampa e o solar
da caatinga, mar sem fim, só resta
correr mundo no lombo de ventos
sumários ou precários, que a vida
não espera, e o cavalo está arriado
DMC
AQUI: 159 fotos que fiz do MAO: picasaweb.google.com/darlan.in/MAOMuseuDeArtesEOficios
Uploaded on Jan 28, 2012
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Map
torrar
MAO - Museu de Artes e Ofícios. Belo Horizonte, MG, Brasil.
Florzinhas cotidianas 1745
HISTÓRIA
uma grande pá de madeira gira no sentido horário, depois roda no sentido anti horário, para que os ombros não doam tanto, ou de modo desigual; então, a farinha vai torrando bem de leve, a madeira chora, a lenha estalando, o cheiro de mandioca no ar, alguma folha ao vento, palavras esparsas debaixo da tenda ou do galpão, e, sentado à mesa, o país espera pela fala final da mandioca: a farinha
DMC
MAO: picasaweb.google.com/darlan.in/MAOMuseuDeArtesEOficios
Uploaded on Jan 27, 2012
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Vamos!
RIO ACIMA, MG, Brasil.
Florzinhas cotidianas 1744
GENTE QUE VEM DE LISBOA, E DO BÓSFORO... DE BÊAGÁ E DOS EUA
Gente que vem da garoa que paira no estreito do bósforo ou em lisboa, igual
e diferente a cada dia, unindo-se à gente ribeirinha
cheia de feixes de luz e fieiras de peixes diversos, gente
caliente, ó matilha desvairada no quintal
das ilusões, a besta está solta, o diabo no seio
do redemoinho
está; gente vem de todos os lados, miúda e graúda
em busca de um tempo erguido sem elas, gente da garoa de lisboa
ou do bósforo, gente quieta (fugitiva?) e gente inflamável feito cabeça
de fósforo, aqui
à beira deste remanso pequeno, pequena cidade onde o rio corre ao contrário
deles e delas.
*****
O FAMIGERADO "BAR TOLO", EM RIO ACIMA
Minhas duas sócias e eu estávamos no famigerado BAR TOLO, bebericando o delicado veneno das palavras, o doce das palavras, com antídotos dos quais fazemos parte todos nós, quando novamente percebemos ser domingo, de novo, aos sábados e domingos chegam turistas vizinhos, vindo também de lugares longínquos, vêm fazer ciclismo, bike, em trilhas secundárias e pela trilha ou Estrada Real, chegam para ir às cachoeiras da cidade, e nós ficamos observando a gente em suas roupas multicores, às vezes, até com outros idiomas, e nos alegramos de aqui estarmos, entre goles de licor de jaboticaba, ou de cachaça com limão capeta, e postas de piramutaba empanada e frita, e a música ao vivo de alguma pessoa amiga com o seu instrumento, logo de manhã, que aqui o tempo é de uma roupagem diferente, nós o fazemos ainda sem muita pressa, da pressa doentia da maioria dos que aqui chegam, mas logo melhoram, logo que chegam aqui, e o BAR TOLO ajuda a cuidar disso, e ficamos pensando na infinita imbecilidade humana, nos mil convites diários ao infarto, à desrazão de outras separações amorosas (é, as pessoas estão sem um mínimo de paciência para com nada, para com ninguém, nem mesmo para com elas, doentes sérias se tornaram [e eu cuido de mim, nada de abrir a cachola de teimosos e teimosas, cegos e cegas contumazes, renitentes]).
Pois é, quando você tiver tempo, venha montar numa bicicleta aqui nesta pequena cidade, venha desmontar-se da vida corrida, criar juízo debaixo das águas das cachoeiras, bebendo conversa e bebendo pinga com limão capeta, pode ter certeza de que o Rio das Velhas vai gostar – e também o dono e as donas do famigerado BAR TOLO. Venha ver o "trem bão, uai!" - aquele com uma saída diária para lá do fim do mundo.
DMC
BAR & RESTAURANTE "OS LÁBIOS SEDOSOS DO DIABO": picasaweb.google.com/darlan.in/COMERBEBERFOODBEVERAGE#509...
Uploaded on Jan 27, 2012
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