Victoria Andalusian Spree
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Victoria: Os Pés de uma Leitora Má
Meu romance se paga pelas oportunidades que ele me proporciona. Ele já teria valido a pena só por ter me juntado à Victoria.
Ela era uma conhecida social. Acabou lendo meu romance porque eu, escritor estreante, empurro meu romance goela abaixo de todo mundo. Victoria voltou com ele todo sublinhado e com mais quatro páginas de caderno cheias de impressões e opiniões. Tinha muita coisa a dizer. Fomos caminhar pela cidade enquanto ela ia me contando tudo o que achara.
Acabamos entrando em um shopping vazio e sentamos em umas mesinhas desertas, em um canto onde não passava muita gente. Parte de sua empolgação era com a podolatria escancarada de Murilo. Ela tinha tido um caso com um homem que adorava idolatrar seus pés, lambê-los e beijá-los: aquilo, para ela, era o êxtase. Dizendo isso, colocou seus pés em meu colo e comecei a massageá-los.
Nos conhecíamos há meses e nunca tínhamos olhado muito um para o outro. Até aquele momento, nunca conversáramos por mais que alguns minutos. Mas aquela tara em conjunto nos aproximou.
Aos poucos, ela foi se revelando. Não gostava somente da sensação de ter seus pés beijados. Gostava de se sentir desejada, poderosa, uma rainha. Seu alter-ego, que usava em salas de chat, era Victoria, uma rainha absoluta e cruel.
É engraçado como a internet facilita muitas coisas. Pessoalmente, Victoria me deixava massagear seus pés e ronronava como uma gatinha satisfeita, mas não passava disso. Uma brincadeira inocente, uma sensação gostosa. De madrugada, quando nos falávamos pelo MSN, ela deixava sair seu lado mais pervertido e falava livremente aquelas coisas que não tinha coragem de falar cara-a-cara. Pela internet, ela tornava-se realmente Victoria, crescia em poder e superioridade, me xingava, dizia as coisas horríveis que faria comigo se me tivesse em suas garras.
Suas inibições eu tive que destruir aos poucos, com delicados golpes de cinzel. Da conversa no shopping ao primeiro beijo, foram três meses e meio de muitas idas e vindas. No dia seguinte, estávamos em um motel e a Rainha Victoria se revelou em toda a sua maldade e majestade.
Seu maior prazer era me xingar. Ela me fazia adorá-la, como uma deusa distante, depois adorar suas botas e, por fim, adorar seus pés, sempre fazendo questão de me dizer o que achava de um homem que se prestava aquele papel. Tinha orgasmos só de me dizer aqueles impropérios. E eu, de ouvir.
Fantasiava coisas horríveis. Enquanto eu lambia seus pés, ela me dizia qual seria meu triste destino. Gostava de dizer que, depois de me usar como seu brinquedinho sexual, iria me encolher, me enfiar em seu tênis, que tinha usado o dia todo, e colocar seus pés lá dentro, para se deliciar com meus esperneios contra suas solas. Quando se cansasse, apertaria, me sentiria esmagar ali dentro como um besouro gordo, até eu fazer ploc, mexeria os dedinhos na pastinha que tinha sido eu, e sairia do quarto de motel sozinha, Victoria vitoriosa.
Também gostava de fantasiar que me encolheria e me daria um peteleco, me arremessando janela afora, e ficaria apreciando o arco que eu desenharia no ar até cair e me espatifar lá embaixo. Sua favorita absoluta era me transformar num cachorro coxo e me largar no meio de uma auto-estrada, para ficar observando do acostamento até que um caminhão apressado me acertasse. Imaginar que faria isso a um homem que tinha acabado de amá-la lhe dava tremendo prazer.
Depois que gozávamos ambos com essas loucuras, eu ia subindo por suas pernas, beijando e lambendo seu corpo inteiro, e fazíamos amor. E ela dormia abraçadinha comigo, gatinha desarmada, rainha destronada.
Nos amamos por quatro meses. Só esses quatro meses já me fizeram valer a pena ter escrito o maldito romance.
Hoje, ainda somos amigos próximos. Ela gosta de me ligar pra me fazer ciúmes com histórias dos outros homens de sua vida. E pergunta: ainda tem vontade de lamber meus pés, cachorrinho? Eu respondo que sim, claro, e ela retruca: você não sabe o prazer que me dá ouvir isso, ainda mais sabendo que jamais beijará meus pés de novo.
Que bobinha. Ninguém melhor do que eu sei o prazer que ela tem em ouvir isso. Por isso é que digo. E por ser verdade, claro.
Perguntei se podia contar nossa história aqui no blog e postar algumas das fotos que tirei dela - sem seu rosto e usando seu codinome Victoria. Ela respondeu que sim, mas eu não teria vergonha dos detalhes sórdidos?
Ora bolas, são os detalhes sórdidos que fazem a história ser interessante. Sem eles, não haveria nada pra contar. E ela deveria saber que não tenho vergonha de nada.
Depois de Victoria, eu nunca mais olhei para as mulheres negras do mesmo jeito. Ela é psicóloga e atende dezenas de pacientes em seu consultório.
Aliás, dentre as malvadas que encontrei em minha vida, a maioria é de psicólogas (profissionais que tratam da nossa saúde mental!), professoras primárias e secundárias (mandonas e tiranas por obrigação de ofício) e, quem diria, contadoras (compensando na fantasia a carreira mais chata do mundo).
Considerem esse texto sem vergonha uma introdução à Prisão Vergonha, que começará a ser publicada amanhã, 1º de janeiro de 2005.
Feliz ano novo.
Comments
Awesome pose!
Posted 25 months ago.
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