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USP Alameda Glete - história apagada | by Tchely Brown
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USP Alameda Glete - história apagada

Um casarão em estilo industrial inglês, na es­quina da alameda Glete com a rua Guaianazes, no Centro de São Paulo, é o cenário onde co­meça a funcionar efetivamente a primeira escola de Genética no Brasil. Nesse endereço situa-se a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP entre 1938 e 1955, que oferece o pioneiro curso de História Natural – vinculado a essa fa­culdade até a Reforma Universitária, em 1971.

Chefe do Departamento de Biologia Geral e pro­fessor de Histologia, o cientista André Drey­fus continua incorporando, a exemplo de sua experiência no Rio de Janeiro, noções básicas de Genética e Evolução em suas aulas e nas disputadas palestras que realiza para platéias formadas por intelectuais de todo o país, mas ainda não há um departamento especializado no as­sunto, pois os estudos e a literatura na área são incipientes na maioria dos países do mundo.

 

No Brasil, apenas algumas pesquisas em Ge­nética Ve­getal, sobretudo aquelas voltadas para o desenvolvimento da agricultura nacional, já são praticadas nessa épo­­­ca, especialmente pelos professores Benedito de Oliveira Paiva, da Universidade Fe­de­ral de Lavras (UFLA), a partir de meados dos anos 1920; o alemão Friedrich Gustav Brieger, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Quei­rós (Esalq), da USP, em 1936; e Alcides Carvalho, do Instituto Agro­nômico de Campinas (IAC), pioneiro na se­leção de variedades comerciais de café, algumas delas cultivadas até os dias de hoje.

 

Outra face da moeda

 

A grande oportunidade para que o Brasil crie seu primeiro grupo de pes­quisas em Genética Animal surge no início dos anos 1940, ironicamente por conta da Segunda Guerra Mundial. “Por causa da Guerra, a Fundação Rockefeller, dos Estados Uni­dos, teve de suspender seus au­xílios à pesquisa para os países da Ásia, da África e principalmente da Euro­pa. Então, eles resol­veram investir na América Latina”, con­ta o geneticista Cro­do­waldo Pavan.

Com esse intuito, Harry M. Miller Jr., representante da Roc­kefeller, chega a São Paulo no ano de 1942 avisando que a po­derosa Fun­dação está disposta a ajudar os laboratórios científicos bra­sileiros, e que o de­partamento de Biologia Geral da Faculdade de Fi­losofia, Ciências e Letras da USP é um dos escolhidos para receber fi­nan­ciamento e promover o intercâmbio de pesqui­sado­res.

Dreyfus é, a prin­cípio, convidado a passar uma temporada nos Estados Uni­dos, para atuar em um labora­tório de seu interesse e visitar as instituições de pesquisa que desejasse – tu­do bancado pela Rockefel­ler. Qual­quer cientista teria aceito a proposta sem pestanejar, mas Drey­fus, peculiaríssimo, recusa o convite, sob a alegação de que não pode aban­donar seu laboratório no Brasil, deixando seus dois jovens estagiá­rios – Crodowaldo Pavan e sua pri­meira-assistente Rosina de Barros – sem orientação.

 

Harry Miller, diante da inesperada recusa, resolve mudar a proposta, oferecendo uma possibilidade oposta: a de vir ao Brasil, por seis meses, um geneticista ucraniano, naturali­zado americado, que tinha interesse em realizar estudos na mata ama­zônica: ninguém menos que Theo­dosius Dobzhansky, responsável por dar grande impulso à pesquisa mundial em Genética de Populações (um ramo da Genética Evolutiva), ciência criada em 1900 com a união das idéias de fatores hereditários de Gregor Mendel e a Teoria da Evo­lução de Charles Darwin.

 

Um escola para todos

 

A chegada de Dobzhansky, em 1943, é o marco fundamental para a criação oficial da Genética no Brasil. “Nesse momento, Dreyfus dá mais uma demonstração de seu caráter e, tomando uma iniciativa que só po­deria partir de uma pessoa altruísta: em vez de tirar proveito da vinda do Dobzhansky so­mente para seu grupo de pesqui­sas, como infelizmente é

de praxe no meio acadêmico, fez questão de convidar todos os de­mais cientistas in­teressados em Genética no país – especialmente o professor Brieger, da Esalq, e Carlos Arnaldo Krug, especialista em milho e café do IAC – para cursos com o cientista”, conta Pavan.

 

Dreyfus prepara o auditório do De­partamento de Química da Facul­dade de Filosofia, na alameda Glete, para que Dobzhan­shy possa ministrar o primeiro curso moderno de Gené­tica e Evolução do Brasil. “Suas aulas estão sempre chei­as, repletas de cientistas e graduandos: durante todo o cur­so, muitas pessoas levam cadeiras dobráveis para se sentar, e outros assistem às aulas sentados na es­cadaria do auditório”, lembra Pa­van. Junto com Dreyfus e seu colega An­tônio Brito da Cunha, Pavan também ajuda o russo-americano a aprender português nos dias que an­tecedem o curso, e é no idioma nacional que Theodosius Dobz­hansky profere to­das as suas palestras.

 

O curso enfatiza como tema central o primeiro e célebre livro de Dobzhansky, Genetics and the Origin of Species (1937), cujo lançamento causa um impacto junto à comunidade científica comparável ao provocado pela obra-prima de Darwin, On the Origin of Species (1859), no século 19. “Com esse livro, Dobzhansky coloca a Teoria da Evolução e a Genética de Mendel na crista da onda, com muito sucesso. Muita gente chega a afirmar na época que o próprio Darwin gostaria de tê-lo escrito”, testemunha Pavan.

 

Paralelamente, Dobzhansky também dá um curso de especialização em Genética de Populações para os integrantes do novo laboratório de Genética da USP: André Dreyfus, Crodo­waldo Pavan, Rosina de Barros e Antônio Brito da Cu­nha convivem diariamente com o geneticista americano durante quatro meses, dando início a diversos estudo de moscas do gênero Drosophila (popularmente co­nhecidas como moscas-das-frutas) existentes no país: essas moscas são um modelo biológico amplamente empregado nas pesquisas básicas e avançadas de Genética de Populações até os dias atuais.

 

Com o estímulo e a visão de futuro de Dreyfus e as inestimáveis contribuições de Dobzhansky, funda-se aí a primeira escola científica de Genética e Evolução bra­sileira, que posteriormente daria origem ao atual Depar­ta­mento de Citologia, Genética e Evolução do Instituto de Biociências da USP e começaria a formar toda uma gera­ção de cientistas res­ponsável pela alto padrão de qualidade hoje alcançado pelos laboratórios brasileiros de pes­quisa genômica.

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Taken on May 12, 2002