brasil caipira

brasil caipira

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Uploaded on Feb 29, 2012

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mais além

mais além

se encontraram naquela mesma curva da calçada, na esquina onde se olharam atrevidos tantas vezes depois que se enxergaram pela primeira vez, e antes de se apaixonarem com fome e sem limites, próximo dali, numa cama qualquer de amores urgentes.
os detalhes, tão imprescindíveis no amor, agora já não eram importantes. sequer se deram conta de que o relógio marcava a mesma hora e meia, e que esse dia tinha o azul igualmente elétrico daquele, azul tão incomum nos céus esquecidos das grandes cidades.
se tocaram com algum embaraço, sem a memória de antes, quando o mundo ao redor deles derretia... e buscaram palavras ariscas e desencaixadas, na tentativa de preencher o vão da emoção que não deu o ar da graça.
nesse diálogo do improviso, enquanto ele falava, ela tentava advinhar no emaranhado das ruas, aquela onde tinha visto na semana anterior uma vitrine de lingerie em promoção. ele focava os ponteiros do grande relógio da praça, ansioso por reencontrar no escritório a nova secretária do chefe, que era um arraso!
ele já não tinha aquele jeito de falar manso e prolongado que a entorpecia. ela definitavamente não ficava bem com a nova cor que usava nos cabelos - mas que cor tinham antes os cabelos dela?!
quando o sinal finalmente deu passagem aos pedestres, se despediram em meio a multidão que atravessava a rua; com pressa e sem pesar, como não foi da outra vez que se despediram.
sumiram um do outro sobre a faixa de pedestres apagada do centro nervoso da cidade. e muito depois de alcançarem cada qual o seu destino, ainda não tinham conseguido imaginar prá onde será que vai o amor quando ele acaba...

k

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Uploaded on Feb 17, 2012

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desmemória

desmemória

acordei de sobressalto e era um rio inundando a casa, a sala, o quarto, invadindo todos os vãos. não tive tempo de salvar da água o relógio que me despertaria dali a pouco, ao amanhecer. e a luz branda do abajour ainda não submerso imitava no teto do meu quarto de dormir o movimento que a água fazia no chão. da gaveta ficaram sem recolher as roupas, os segredos, os retratos. os pés afundaram no tapete enxarcado e os braços se debatiam débeis a rodopiar no ar, como remos na tempestade. meus sapatos corriam desordenados, e da bolsa fugiram meus nomes, meus números, minha parca reputação. minhas dívidas se amontoaram na lama e para não me afundar tive que me desviar de alguns livros que vinham do escritório com a correnteza, e num tropeço, quase desafinei o violão que você me ofereceu na semana passada. restos de comida da louça do jantar que não lavei agora decoravam os cantos nobres da casa e o lixo da cozinha brincava desavergonhado, em círculos, na entrada da sala de jantar. a água barrenta já alcançava a metade da parede, escondendo os trincos das portas e o curso intenso não parava de aumentar. as janelas emperraram e o peixe faminto do aquário passou por mim assustado com tanto espaço por onde nadar. eu já apalpava o teto quando bach começou a tocar. primeiro suave, ao longe, depois tão violento que fazia ondas que me jogavam contra as quinas do topo dos armários da despensa onde quase morri de susto até descobrir que não era sangue, mas o meu estoque de vinho chileno o que tingia a água onde agora eu me afogava, sem sentido. em meio a meu revés pouco cotidiano, o volume da música ia ficando mais e mais insuportável e eu despertei confusa, e apalpei no escuro, autômata, o celular que esqueci de desligar e que despencou no chão em pedaços. nem pude saber quem tinha o despudor e a falta de finesse de me telefonar àquela hora da madrugada, mas eu confirmei, afinal, que o meu problema sério e progressivo de memória um dia iria me salvar...

k

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Uploaded on Feb 13, 2012

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beleza antiga

beleza antiga

prostrou-se ali no canto da casa
destoante da mobília recém escolhida
não trazia as cores da moda
nem a idade escondia
na pele sem viço as marcas do tempo
corrompendo o padrão da revista
nas regras do mundo a condenação,
o desacato
mas nela frustração não havia...

sua alma brilhava mais do que o piso da sala!

k

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Uploaded on Feb 10, 2012

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vestígios

vestígios

o passado passou há pouco
violento
varrendo o tempo no quintal
derrubou do varal a esperança que não foi colhida
por medo
ou apatia
e marcou no chão de terra batida uma história
que ficou sem fim
a poeira fina do redemoinho trouxe um cheiro amargo
de ausência
de ilusão
juntando sob as unhas a matéria implacável
das lembranças perenes
manchando de marrons tristonhos
os risos
e os suores
e as flores do jardim agora tem um tipo de beleza
inconstante
que lembra muito alguém que um dia foi feliz.

k

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Uploaded on Feb 8, 2012

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