silence

    [...] Eu era douto e alto, evasivo, por vezes agourento qual pássaro sinistro, de canto deletério, mas a ninguém assustava - acho que ninguém me entendia - minhas aulas eram simples farsa, prosa estética, literatura greco-chinesa em lugar de política, malva, aipo, passeio eclético por conceitos e predicados.

    Eu tinha as mãos precisas, de firmeza adâmica, o pomo por vezes tremendo na garganta - se a moça me olhava nos olhos eu a olhava nos seios e ficávamos os dois pálidos, simulando tarefas e constrangimento.

    Mais tarde, eu encerrava o dia, fechava as frestas, as réstias de luz
    e vergonha acadêmica, mergulhava
    no ser
    no espaço
    na exaltação dos campos femininos que eu trazia no espírito, florindo
    e morrendo de quando em quando.

    Às vezes, se o meu anoitecer vinha antes, mesmo em sala, em aula
    - hoje sei que jamais me percebiam a alma - eu perdia ainda mais a noção euclidiana dos meus gestos.

    Se nos olhávamos na boca, não exalava desejo e sim o gosto mútuo
    pelo que há de magistral no silêncio.

    Comments and faves

    1. zenog (80 months ago | reply)

      uma artista...

    2. zenog and Donina added this photo to their favorites.

    3. Donina (79 months ago | reply)

      Dreamlike. Ethereal. Beautiful.

    4. botequim_virtual (72 months ago | reply)

      "Trés belle!" digo eu !!! Não tenho a menor idéia de quem vc seja, mas não só as suas imagens, como especialmente o seu texto, são mto bons !!! As imagens q vc apresenta são feitas por vc mesmo? Ou são, como no meu espaço virtual, um clipping temático do q encontro viajando por aí, pelos átomos ou pelos bits ? Mais uma vez, parabéns !!!

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