eu não entendo. a fotografia é algo que me escapa. não é de hoje, mas de sempre. talvez do nosso primeiro encontro – que já não guardo na memória – esse desentender que persegue.
e o mais desanimador é que nunca entenderei. mas me conforto na ignorância. compreender já não é mais problema, certa que fico de que não é possível descrever aquele resultado, apesar de tanta gente já ter tentado. porque o que eu vejo não é exatamente uma reação química, no seu sentido mais puramente destruidor. fico imune a tanto reducionismo, e quando vejo uma foto, vejo mais do que um simples registro.
fotografia, do grego, “desenhar com luz”, soa muito além do que qualquer cientificismo possa descrever. e tudo se mistura num ceticismo quase que místico.
tenho medo da fotografia porque ela cabe em si. e nela cabem todas as coisas do mundo. num movimento que se assemelha por demais ao eterno retorno, que me foi quase impossível de digerir naquele livro de kundera*. porque é um ser (o mundo) que se condensa num estar (a foto), que vai fazer referência a um outro ser (o mundo fotografado). e assim naquele círculo vicioso que eu chamo de vida. mais parecendo que a gente está preso. sendo isso o que atordoa.

a fotografia é uma arte que captura, que prende. porque cada pedaço de gente dentro de uma foto está consumido em uma parte. e é um pedaço de gente a menos. como aquelas pessoas que não se deixavam fotografar porque acreditavam que a fotografia era capaz de lhes roubar a alma. e quem é que pode negar?
penso nisso com mais intensidade ainda quando vejo uma pinhole, com toda a sua artesanal perspicácia. e me soa como se fosse possível a gente fazer as mãos em concha e, abrindo um tiquinho, capturar um pedaço de mar. depois chegar em casa, abrir as mãos com delicadeza “para não desmanchar” e dizer surpreso: mãe, olha o mar que eu trouxe pra você lá de calhetas. acho que vai ter um dia em que a gente vai poder fazer isso com cheiro e mandar um email: meubem, te mando aquele cafezinho que você tanto gosta. beijo.

Pois, quando vejo uma pinhole é quando me espanto com a idéia de que a memória não depende da mente, nem de pensar. porque uma foto de pinhole é como lembrança, numa lata de leite ou numa caixinha de fósforo. o fotógrafo é um furtador de momentos.

* “Se cada segundo de nossa vida se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que leva Nietzche a dizer que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos”. (kundera, a insustentável leveza do ser)

expediente: joana pires, recife, 23, 65, 170, 35,
não é artista, não é ilustradora, não é fotógrafa nem jornalista.
twitter.com/joanafpires
ama imagens, e vive palavras.

*este flickr não é um instrumento profissional. as fotografias publicadas aqui não possuem nenhum compromentimento artístico, nem fotojornalístico. ou seja, faço aqui o que eu quisé.

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Name:
Joana Pires
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April 2008
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recife
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bzl
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Female and Single
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